Muitas dúvidas vêm imediatamente à nossa mente quando evocamos o termo “Racismo”, mais difícil ainda quando somos exigidos dentro do ambiente corporativo a apresentar medidas de enfrentamento.
É difícil enfrentar aquilo que não se conhece, muito menos “imaginar o que não se viveu”, como disse o filósofo Zeca Pagodinho.
Em regra, o que sabemos sobre o Racismo é superficial, talvez algumas estatísticas e chavões como “diversidade é convidar para o baile, mas inclusão é tirar para dançar” e suas variações.
Por onde começaríamos? Por um livro de história? Pesquiso lugar de fala no Google? Compro um livro da Angela Davis? Do Laurentino Gomes? Do Silvio de Almeida? E olha que esse pessoal são os que que estão ou estiveram mais visíveis, em evidência na mídia. Se você nunca ouviu falar deles e está envolvido de alguma forma com o tema diversidade racial na sua empresa, é bom dar uma pesquisada, pelo menos para não ficar totalmente off.
Não se sinta 100% culpado, talvez uns 70%. Da formação inicial até a pós graduação, atualmente com algumas exceções, o tema “Negros” não é objeto de estudo da educação oficial brasileira, a não ser superficialmente o tema escravos e a princesa Isabel.
Resultado objetivo nas empresas: prejuízo. Frente as demandas mundiais por diversidade o RH não sabe direito o que fazer, ou como adotar políticas, ou quais são as questões que afligem os negros. O Jurídico tem enorme dificuldade para justificar os mais simples projetos de contratação de negros, a comunicação adiciona alguns negros nas fotos, e por ai vai.
Só que em eras modernas, não basta mais apenas ser diverso e inclusivo, agora, na verdade já algum tempo difundiu-se o Ético.
Ai deu um nó. Você tentando ler um livro aqui outro ali, correndo atrás para se atualizar e vem a pergunta Ética e inclusão racial, o que uma coisa tem com a outra?
Imagino que aqui você esteja pensando, perdi tempo nessa leitura. Mas se você chegou até aqui, agora fica bom, ou realmente você vai ficar sem entender nada (espero que não).
Vamos fazer uma divisão clássica para você ter mais clareza quanto ao termo Racismo. Vamos dividir em dois eixos, Preconceito e Discriminação. Eu particularmente não gosto muito desse raciocínio, mas para início de conversa vai ajudar.
Esqueça o termo racismo por enquanto, vamos nos concentrar em Preconceito e Discriminação:
O preconceito é a crença prévia, interior, da inferioridade, das qualidades morais, intelectuais, físicas, psíquicas ou estéticas de alguém ou de um grupo, baseada na ideia de raça.
Logo, toda vez que esta crença prévia, interior, da inferioridade, das qualidades morais, intelectuais, físicas, psíquicas ou estéticas de alguém ou de um grupo, estiver calcado em ideias raciais, estaremos diante do preconceito racial.
Se substituirmos raça pela ideia da superioridade masculina ou inferioridade feminina, estaríamos diante de um preconceito contra a mulher ou de gênero.
O preconceito esta intimamente ligado a ideia pré-concebida, ao vulgo “achismo” interior. Os negros são fedidos né? Essa mulher com esse cabelo é tão estranha. O Preconceito é mais amplo.
A discriminação entra no campo do comportamento, das ações, esse achismo, essa percepção interior, transpassa o interior do indivíduo e se materializa em uma ação, uma conduta, uma prática, ou seja, um ato com implicação “física” no mundo.
A ideia ao tratar da discriminação é a busca da prática discriminatória, que em geral tem como resultado a segregação a apartação, em maior ou menor escala e desigualdades raciais.
Veja: Essa mulher com esse cabelo é tão estranha > Preconceito.
Mas também com essa cara de trombadinha, não tinha como contratar. (há uma conduta, não houve a contratação do candidato, devido a crença prévia, interior, da inferioridade, das qualidades morais, intelectuais, físicas, psíquicas ou estéticas de alguém ou de um grupo, calcado em ideias raciais) > Discriminação.
O preconceito em regra seria o propósito e ações interiores, enquanto a discriminação seria composta por comportamentos e ações concretas.
E o que tudo isso tem que ver com Ética e Cultura Organizacional?
O significado básico de Ética para os gregos era o hábito, o usual, também exprimindo a ideia de costume, ou então uma ordenança cultual, tendo também o sentido de Lei ou prática da Justiça.
Ética é muito mais que uma formalidade, do que o conhecimento de umas tantas regras estabelecidas as quais eu me adapto. Na verdade, é necessária uma interiorização, que eu tenha um sentimento ético, que eu tenha consciência ética.
Mas a Ética é por definição um comportamento, que ou é praticado ou é impossível falar em Ética.
E é justamente porque a Ética atua sobre o comportamento que ela deve, no âmbito da empresa, se impor a Discriminação Racial, a qual já vimos, também é um comportamento, uma conduta, a prática de um ato desprezível.
O Ethos é justamente um comportamento que se adota, e que se repete, que se consagra pelo tempo e transforma em costume. Uma prática informada por valores, que influem para que eu adote aquele comportamento, que por fim acabará influenciando toda a Cultura da Empresa.
Logo não podemos falar de Cultura Empresarial sem Ética, e não podemos falar de Ética empresarial sem combater objetiva e publicamente a discriminação racial.

Referências Bibliográficas
Guimarães, Antonio Sérgio Alfredo. Preconceito e Discriminação. São Paulo. Ed. 34. 2004
Dallari, Dalmo de Abreu. Ética. Ebook. 2003.
Brandão, Helena H. Nagamine Brandão. Introdução à analise do discurso. Campinas. Ed. Unicamp. 2002.
Raphael Vicente. Sócio do Escritório Vicente e Vicente Sociedade de Advogados. Especialista em Direito do Trabalho. Pesquisador, Mestre e Doutorando em Ciências Sociais – PUC/SP, Coordenador da Iniciativa Empresarial pela Igualdade