Fonte: Mariana Belmont, do UOL (ECOA)
Começamos essa semana com fortes chuvas em São Paulo, acredito que a maioria da população sentiu diretamente as consequências. Os bombeiros informaram que na Grande São Paulo foram 320 enchentes, 36 desabamentos  e deslizamentos e cerca de 47 quedas de árvores. São Paulo teve o maior volume de chuva em 24 horas em fevereiro dos últimos 37 anos. O esperado é que o volume aumente, e as consequências mostram que os eventos climáticos não são problemas que as próximas gerações vão sentir, são problemas que estamos sentindo agora e precisamos falar sobre isso.
Se a gente parar para olhar a cor das pessoas que moram nas favelas, nas vielas, nas margens de rios e represas, nos morros e nas ruas das periferias das cidades, vamos começar a entender sobre quem falaremos aqui. Olhemos a cor da grande parte dos corpos levados pelas enchentes, soterrados pelos deslizamentos, desmoronamentos, mortos com doenças causadas pela falta de saneamento básico e que perderam suas casas em mares de lama.
Obviamente esse texto não encerra o debate sobre o conceito de Racismo Ambiental, a ideia é começarmos a abordar com mais frequência e com diversos olhares e exemplos, que infelizmente não acabam no Brasil, todos os dias temos novos casos, novos projetos públicos e grandes obras que afetam diretamente a população mais pobre. Por isso, é importante falarmos sobre as questões ambientais e sociais com mais naturalidade, com exemplos e com a história, para que as pessoas comecem a reparar os problemas socioambientais no seu dia a dia.
Ouvindo as pessoas, lendo muito sobre o termo há muitos anos e acompanhando debates ambientais no âmbito nacional desde que comecei nessa vida de ativista, funcionária pública e curiosa, foi assim que, hoje, consigo ter um olhar para essa urgência e achar que toda a sociedade precisa com urgência entender sobre isso.
Racismo Ambiental
O Racismo ambiental surge dentro dos debates e pesquisas sobre justiça ambiental, foi uma reivindicação realizada pelo movimento negro dos EUA. Foi o reverendo Benjamim Chavis, assistente de Martin Luther King Jr. e ativista do movimento pelos direitos civis nos EUA, que empregou o conceito “racismo ambiental”. O caminho que conecta essas histórias é uma encruzilhada que chega nas desigualdades e discriminações étnicas e raciais, na qual definem quem são os excluídos e quem são os privilegiados nas disputas por territórios, levando em conta o que e quem está em disputa dentro dos direitos socioambientais.
No Brasil, o movimento ambientalista é um pedaço elitizado que debate e que historicamente fez parte de processos importantes combatendo a degradação ambiental. Esse movimento em geral é formado por grandes pensadores, estudiosos e ativistas empenhados no tema. Ao lado, as comunidades tradicionais cada vez mais precarizadas e esquecidas na construção das cidades, mesmo assim, lutando e combatendo o processo desenvolvimentista dos últimos governos, independente de lugar ideológico. Se passaram décadas e as terras quilombolas não foram tituladas como deveria, os indígenas não tiveram suas terras demarcadas e os ribeirinhas estão cada vez mais à margem da pobreza na região norte.
A falta de água nas torneiras nas periferias não acontece em épocas específicas do ano, acontece todos os dias, para que as áreas nobres tenham água disponível, as pessoas periféricas convivem com a falta de água. Crianças morrem nas margens dos córregos nas enchentes, famílias perdem suas casas que foram construídas dentro das represas
Em 2015, o fim da construção da Hidrelétrica de Belo Monte, que fica na região norte do país,  foi marcado pelo êxodo. 50 mil trabalhadores foram embora, os empregos desapareceram e a violência surgiu na cidade, juntamente com uma grande crise na saúde, que sobrecarregou o hospital local quando o esgoto não tratado começou a ficar represado atrás da barragem. O consenso entre os especialistas em meio ambiente em Altamira é que Belo Monte, com seu desmatamento e alteração do fluxo do rio, também pode ter acelerado os efeitos regionais das mudanças climáticas, que já eram sentidos antes de sua construção. Ocorreram mortes de peixes e seus estoques despencaram, e as tartarugas que se alimentavam de peixes deixaram de se acasalar, prejudicando os meios de subsistência das comunidades tradicionais ao longo do rio Xingu.
Por fim, um exemplo da chamada “cidade de concreto”. As enchentes graves que ocorrem todos os anos no Jardim Pantanal, zona leste da cidade de São Paulo. O local convive com a expectativa da próxima enchente, em determinadas épocas do ano, é uma triste realidade para famílias do Jardim Pantanal. Para completar, as pessoas têm suas propriedades em situação irregular, o bairro está localizado numa Área de Proteção Ambiental (APA) junto à várzea do Rio Tietê, com aproximadamente 1 milhão de metros quadrados (m²). No final de 2009 e início de 2010, o bairro teve sua pior enchente. Foi quando a maioria dos moradores teve que conviver por cerca de três meses com suas casas invadidas pelas águas. Três meses sem água potável, além da incidência de doenças como a leptospirose e de pele.
Todas as gestões seguem um modelo de urbanização que é um desastre, pensada na lógica do centro, desconsiderando as áreas rurais, as margens das centralidades e com zero preocupação social e ambiental. É assim em qualquer lugar, em todas as mudanças de gestões, a solução é cimentar rios, construir grandes avenidas para melhorar o fluxo de carros próprios entre os bairros mais abastados.
O tema não se encerra e os exemplos são infinitos, infelizmente, mas o que vemos é que para garantir conforto e vida das pessoas brancas e privilegiadas dos bairros mais nobres das cidades, os governantes expõem pessoas negras e pobres às condições de maior precaridade e muitas vezes à morte. Faz sentido? É também um projeto de genocídio contra essa população.
É possível então começarmos a nos organizar e pensar sobre quais são os modelos de cidades que queremos de fato viver?