Lopes conta que racismo era assunto ‘proibido’ em casa
Fonte: Luiza Franco, da BBC News Brasil
Lopes conta que Afro-Brasil Reluzente: 100 personalidades notáveis do século XX (Nova Fronteira, 2019), que será publicado no mês que vem, traz um personagem “polêmico”: Pelé, “que as pessoas lembram sempre que nunca se pronunciou sobre o racismo brasileiro”. Lopes, entretanto, diz que Pelé é de uma geração anterior em que o assunto “racismo” era tabu em famílias negras.
“Até eu chegar à universidade, esse assunto era proibido na minha casa. Diziam ‘tem mais é que estudar, não tem que se meter nisso, isso não adianta’. Era aquela história, ‘isso é muito triste, mas já passou, não temos que pensar nisso’. A cura pela alienação.”
Hoje, os tempos são outros. Para Lopes, que é autor de romances, ensaios e dicionários/enciclopédias como Dicionário da Antiguidade Africana (Civilização Brasileira, 2011), Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (Selo Negro, 4ª.ed., 2011) e Dicionário da História Social do Samba — este escrito em parceria com Luiz Antônio Simas e vencedor do Prêmio Jabuti de Teoria/Crítica Literária, Dicionários e Gramáticas —, “o mercado está descobrindo o potencial do povo negro” e a presença maior na mídia de artistas e intelectuais negros é “positiva, um passo para maiores conquistas, como o poder político”, mesmo que isso tenha “mais a ver com consumo do que com representatividade”.
Hoje, os tempos são outros. Para Lopes, que é autor de romances, ensaios e dicionários/enciclopédias como Dicionário da Antiguidade Africana (Civilização Brasileira, 2011), Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (Selo Negro, 4ª.ed., 2011) e Dicionário da História Social do Samba — este escrito em parceria com Luiz Antônio Simas e vencedor do Prêmio Jabuti de Teoria/Crítica Literária, Dicionários e Gramáticas —, “o mercado está descobrindo o potencial do povo negro” e a presença maior na mídia de artistas e intelectuais negros é “positiva, um passo para maiores conquistas, como o poder político”, mesmo que isso tenha “mais a ver com consumo do que com representatividade”.
Filho de um operário que nasceu três meses antes da abolição, em 1888, Nei Lopes diz que “Consciência Negra”, a data celebrada nesta quarta-feira, “tem que ser o ano inteiro, o dia todo”.
ENTREVISTA
• Como foi concebido o livro e como selecionou as pessoas que entrariam?
Nei Lopes – O livro foi um convite da editora, que eu aceitei com prazer, apesar de ter recebido um prazo apertado. Delimitei a pesquisa a pessoas nascidas no século 20, senão ficaria uma infinidade de nomes. O objetivo é dar visibilidade àqueles que fizeram ou fazem obras importantes…. Aqueles que têm história pessoal com a qual podemos trabalhar, que mostrem superação.
Alguns foram escolhidos por sua originalidade. O jogador de futebol Paulo Cézar Caju, por exemplo, sempre combateu o racismo à sua moda, com muita ousadia, e foi amaldiçoado em sua carreira por isso. Hoje superou as barreiras e tem uma coluna semanal (de jornal) onde fala coisas da maior pertinência sobre os problemas do futebol.
• Como e quando surgiu sua consciência racial?
Lopes – Na adolescência, já tinha um bichinho andando na cabeça por causa da questão da representatividade. Eu não via numa revista, num jornal, negros em condições invejáveis, só no ambiente radiofônico, mas aí, percebi que aqueles negros não tinham nome, eram apelidos — Jamelão, Chocolate, Noite Ilustrada. Isso começou a mexer comigo. Meu primeiro casamento foi com uma mulher negra de classe social diferente da minha — ela era classe média, eu era filho de operário. Os pais dela tinham essa consciência, isso na década de 1960, e foi aí que comecei a despertar.
• O livro tem uma maioria de homens.
Lopes – Isso é quase natural porque a emergência da figura feminina é muito recente. As mulheres que se notabilizaram até as décadas de 1930, por aí, não apareceram — suas histórias só foram resgatadas bem depois. Esse desvendamento só começa com o movimento negro na década de 1970. Quem sabe se num volume dois tenhamos mais equilíbrio.
• Como vê a música popular e o samba hoje?
Lopes – O mercado exige tudo mais simples, mais fácil e mais igual. Inclusive isso hoje é uma exigência das novas formas de distribuição de conteúdos musicais, no ambiente virtual. Se a música não for “facilzinha”, o eventual consumidor sai do canal em busca de outra.