Negros na liderança: debates sobre desigualdade racial crescem, mas ainda há falta de referências

Especialistas e profissionais negros dizem que a redução da desigualdade racial no mercado de trabalho caminha a passos lentos; pesquisas apontam que as empresas vêm demonstrando maior interesse pelo tema.




Por Karina Trevizan e Gabriella Bridi, G1 e Globonews


Para negros em início de carreira, muitas vezes, não há referências de líderes negros nos locais em que trabalham. A falta dessa referência em grandes empresas não é uma sensação isolada. Uma pesquisa do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social com as 500 empresas de maior faturamento do Brasil aponta que os negros são de 57% a 58% dos aprendizes e trainees, mas na gerência eles são 6,3%. No quadro executivo, a proporção é ainda menor: apenas 4,7% são negros. Caio Magri, diretor-presidente do Instituto Ethos, diz que a evolução de medidas que ampliem a representatividade dos negros no mercado de trabalho caminha a passos lentos no Brasil.


Para as mulheres negras, a sub-representação é ainda maior que a dos homens, aponta a pesquisa. No quadro executivo das empresas pesquisadas pelo Ethos, havia apenas duas negras – o que confere a elas a fatia de 0,4% de participação no total.

Em entrevistas de quatro profissionais negros que estão em cargos de destaque e liderança, eles foram unânimes ao dizer que percebem um aumento das discussões sobre a igualdade racial nas empresas. Eles apontam ainda, que isso é positivo, embora, ainda seja uma questão incerta o quanto essa melhora tem ajudado a mudar efetivamente o cenário.


A pesquisa do instituto Ethos mostra que a maioria dos gestores das grandes empresas de fato reconhece o problema: 64% deles dizem que há menos negros do que deveria no quadro executivo das organizações em que trabalham.


Por que ainda não temos igualdade?

A maior parte dos gestores acredita que a desigualdade se deve à falta de qualificação profissional dos negros. Essa foi a resposta de 48% dos entrevistados pelo Instituto Ethos. Mas uma fatia considerável dos gestores reconhece como motivo a dificuldade e a falta de conhecimento da própria empresa em lidar com o tema. Essa resposta foi citada por 41% dos gestores, segundo a mesma pesquisa.

Já os profissionais negros que alcançaram postos de liderança reiteram que a falta de referências também é uma barreira para o crescimento profissional.


O que pode ser feito

Mesmo com mais organizações de olho na questão, os números mostram que pouco tem sido feito pelas empresas para equilibrar a diversidade racial em seus quadros executivos. Segundo a pesquisa do Ethos, 85% das maiores empresas do país dizem não possuir medidas para incentivar e ampliar a presença dos negros no quadro executivo. No restante das empresas – ou seja, entre aquelas que dizem ter ações afirmativas voltadas para negros –, a maioria (55%) diz que estabelece programas de capacitação profissional para os negros. As que fazem programas especiais de contratação são 33%, mesma proporção das que criam metas para a reduzir a desigualdade salarial entre brancos e negros. A menor parte (11%) tem metas para ampliar a presença de negros em cargos mais altos.