As crianças órfãs mandadas de Portugal para catequizar e 'branquear' o país


Fonte: Edison Veiga, em colaboração para o TAB (UOL)


Um capítulo ainda pouco conhecido da formação do povo brasileiro está completando 470 anos. A partir de 1550, de forma sistemática, o reino de Portugal enviou para a colônia sul-americana meninos e meninas órfãs. O argumento oficial era que essas crianças ajudariam nos trabalhos de evangelização, empreitada assumida pelos padres da Companhia de Jesus. Mas historiadores concordam que havia outros motivos: tirar esse "problema" das ruas de Portugal e, ao mesmo tempo, promover o "branqueamento" da população do Brasil.


Os jesuítas sabiam como o aprendizado de línguas costuma ser mais fácil na primeira infância. Assim, as crianças acabaram sendo úteis intérpretes das línguas indígenas. "Os primeiros tradutores que existiram no Brasil eram homens brancos que haviam se envolvido com índios, indo morar em aldeias. Eles aprenderam idiomas e acabaram traduzindo a comunicação dos jesuítas com os nativos, e vice-versa", conta Paulo Rezzutti, historiador do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. "Mas isso não deu muito certo, porque muitos desses europeus não queriam saber de religião. Então surgiu a ideia de utilizar crianças órfãs."


"Eram crianças que, em Portugal, estavam em instituições mantidas pelos jesuítas. Elas foram trazidas ao Brasil e acabaram se tornando amigas das crianças indígenas. Elas aprendiam o idioma nativo e as crianças indígenas aprendiam o português", aponta o historiador. Esse processo contribuiu para que os religiosos jesuítas aprendessem as línguas que se falavam no território novo. Em 1595, o padre José de Anchieta (1534-1597) escreveu a primeira gramática do tupi.


A primeira leva Os primeiros meninos órfãos mandados de Portugal para o Brasil vieram no início de 1550. Partiram de Lisboa em 7 de janeiro, com destino a Salvador — a viagem, na época, levava cerca de 50 dias. De acordo com levantamento realizado pelo padre jesuíta Serafim Soares Leite (1890-1969), eram "sete ou oito" crianças.


Já havia em Salvador uma missão da Companhia de Jesus. Em 29 de março de 1549, quando o político e militar Tomé de Sousa (1503-1579) desembarcou em Salvador para tomar posse como primeiro governador-geral do Brasil, sua comitiva trazia seis padres jesuítas, entre eles Manuel da Nóbrega (1517-1570). Os religiosos ficaram com uma pequena casa próxima aos muros da cidade.


"Estava determinado [pelo Rei de Portugal ao governador] que se evangelizassem as crianças indígenas, tirando-as da vida com sua comunidade", explica o educador e historiador Paulo Romualdo Hernandes, professor da Universidade Federal de Alfenas. "Nóbrega, então, começou o trabalho evangelizador com essas crianças, tirando-as de suas aldeias e as levando para a casa dos jesuítas, em Salvador, que se tornou a primeira escola do Brasil. Em seguida, para poder manter os meninos indígenas e mestiços na escola, Nóbrega conseguiu terras, escravos e uma vaquinha junto ao governador. Esse lugar foi chamado Água dos Meninos — e a escola, nomeada Colégio dos Meninos de Jesus."


Quando chegaram os órfãos de Portugal, foi nessa mesma casa que eles foram instalados. Eram crianças que, em Lisboa, viviam no Colégio dos Meninos Órfãos, instituição que tinha sido fundada em agosto de 1549. Segundo o entendimento da época, era tempo de "recolher os meninos das ruas, nesse caso de Lisboa, e discipliná-los nos colégios". "Nascia a sociedade disciplinar", afirma o educador, citando expressão cunhada pelo filósofo Michel Foucault (1926-1984). "Assim, esses disciplinados meninos órfãos vieram para o Brasil, a pedido de Nóbrega, para ajudar na evangelização dos nativos."


Mas se encarar a travessia pelo Atlântico e o desconhecido — e selvagem — Novo Mundo era arriscado para adultos com espírito aventureiro, que dirá para crianças sem pai nem mãe. No artigo acadêmico "Meninos órfãos vindos do Reino para a América Portuguesa: mestiçagem cultural", de 2016, Hernandes conta que, antes do embarque em Portugal, essas crianças encenavam uma procissão pelas ruas, do centro de Lisboa até Belém, com muitas orações e comoção. Eles eram tratados como futuros mártires da fé. "Não deveria ser nada fácil a vinda dos meninos órfãos para um lugar desconhecido, ainda selvagem, com habitantes antropófagos", comenta o pesquisador.


O historiador Fábio Pestana Ramos é outro que já se debruçou sobre o tema. Ele escreveu o capítulo "A história trágico-marítima das crianças nas embarcações portuguesas do século XVI", parte do livro "Histórias das Crianças do Brasil", organizado pela historiadora Mary Del Priore. E atentou para as agruras enfrentadas pelos órfãos ainda a bordo, os "miúdos que mais sofriam com o difícil dia a dia em alto mar" — segundo ele, além de fome e doenças, as crianças ainda sofriam "abusos sexuais de marujos rudes e violentos". Ramos define esta como "uma história de dor e de conflito entre o mundo adulto e o universo infantil".


As meninas órfãs Um ano depois dos primeiros órfãos, aportou no Brasil uma nova embarcação trazendo crianças. Nove meninas órfãs. "Eram conhecidas como órfãs da rainha, porque a iniciativa era patrocinada pela rainha de Portugal", afirma Paulo Rezzutti. "A função era 'branquear a raça', fazer com que os portugueses que estavam servindo no Brasil não se casassem com as índias, como vinha acontecendo. Junto com as meninas, vinha também um cargo público e uma pensão — tudo para convencer os homens a se casarem com elas, em vez das índias e, assim, manter a 'pureza da raça'."


Rezzutti aborda isso no seu livro "Mulheres do Brasil". "Trienalmente, se deveria enviar para a Índia e para o Brasil algumas dessas recolhidas, com carta de recomendação aos representantes da Coroa para que as casassem com a decência possível e lhes assegurassem o provimento de ofícios públicos como dote de casamento", aponta ele, na obra.


"Aos olhos da coroa portuguesa, valia o investimento com o custo do transporte, da alimentação e do pagamento de um bem muito valioso como dote, um cargo no governo para quem se casasse com elas, afinal, além de fidalgas, eram mulheres 'limpas de sangue', cristãs-velhas, ou seja, não-judias. Fazia parte do processo de colonização o embranquecimento da colônia", prossegue. "Aos filhos dos colonos, ao menos os de alta posição social, caberiam as melhores sesmarias e os melhores postos da burocrática engrenagem colonial portuguesa. Eles se sentiriam parte do povo português e não filhos da terra."


Esses arranjos abusivos foram tratados com acuidade pelo quadrinista e roteirista José Aguiar em sua graphic novel "A Infância do Brasil". "É a negação da nossa miscigenação. No início da colonização extrativista do país, boa parte dos europeus aqui residentes eram criminosos exilados que mantiveram relações com as nativas, gerando os primeiros mestiços com nossos indígenas. 'Pecado' que incomodou a Igreja. Buscando manter a pureza racial da colônia, meninas órfãs passaram a ser importadas de Portugal", contextualiza. "Eram mercadoria, escravas sexuais, valiosas por sua brancura, virgindade e, principalmente, capacidade reprodutiva."


"Assim o Brasil Colônia nasce de mulheres que são consideradas tudo isso, menos pessoas. Imagine o terror dessas viagens, desses casamentos forçados", analisa Aguiar. "É um péssimo começo. Mas é como inicia minha HQ, mostrando um parto com um pai preocupado em ter um filho homem pois acha que outra menina lhe seria prejuízo. Passados 500 anos, será que superamos esse machismo, esses preconceitos de gênero e raça? As mulheres têm assegurado o direito sobre seus próprios corpos?"


Miscigenação cultural Especialistas dizem ser muito difícil pesquisar quantos meninos e meninas órfãs foram enviados dessa forma ao Brasil. Cartas escritas por jesuítas costumavam mencionar a ajuda dessas crianças. Em 1552, o padre Francisco Pires (?-1586) relatou aos superiores da Companhia de Jesus em Lisboa as atividades desempenhadas pelos órfãos. Segundo o religioso, eles peregrinavam pelas matas e aldeias, junto aos jesuítas, pregando "em língua da terra os ensinamentos da vida cristã". Eles carregavam uma cruz e muitas vezes entravam nas habitações dos indígenas.


Os órfãos rapidamente aprenderam costumes indígenas. "Cantavam música em um tupi falado com boca de português, e não exatamente a língua dos nativos. Dançavam à moda indígena, tocavam instrumentos indígenas, os mesmos que os nativos usavam nos rituais antropofágicos. Com isso, velhos índios e velhas índias, que eram os mais resistentes na intromissão dos pobres em suas vidas, e todos os demais saíam a cantar e dançar com os meninos órfãos e os padres", conta Hernandes. "O curioso é que, de um lado, os padres acreditavam, seguramente, que aqueles índios e índias tinham se tornado cristãos; não desconfiavam que talvez os nativos estivessem apenas dançando e cantando, e talvez até sessem entre si que, finalmente, os padres, homens estranhos, haviam assimilado a cultura deles, cantando e dançando como eles."

Quadrinhos de "A Infância do Brasil", do ilustrador José Aguiar


"Alguns meninos órfãos se tornaram sacerdotes e atuavam, sobretudo, nas aldeias, para onde foram transferidas as escolas de evangelização de meninos índios e mestiços", completa o pesquisador. Essa mestiçagem cultural, cheia de asperezas e violências, é um episódio pouco conhecido fora dos meios acadêmicos. "Mas se trata da formação do povo brasileiro, o povo todo, não somente o europeu, o branco e o cristão", define Hernandes. As raízes podem doer.