"Afroterapeutas": Sua psicologia dá conta do racismo?

Por Nathália Geraldo, de Universa


Estar em um consultório para cuidar da saúde mental pode significar mexer em espinhos que foram colocados a vida inteira na subjetividade. Mulheres negras, por vezes, vão ao divã para reviver e elaborar situações de racismo e as batalhas que enfrentam por fazerem parte de dois grupos que são minorias, pelo gênero e pela cor.


Falamos com alguma mulheres que estão atrás de acolhimento para questões que passam por sua cor de pele e acabam preferindo ser atendidas por psicólogas e terapeutas negras por uma questão principal: identificação. O racismo, a solidão na vida amorosa, o preconceito em espaços como ambiente de trabalho, a dificuldade de ter autoestima estão entre os temas.


Motivos para tratamento não faltam em um país em que a rapper Stella Yeshua foi confundida com uma funcionária de limpeza por ser negra, por exemplo.

"Ela entende minhas vivências e sabe o que é ser uma mulher negra na sociedade. Acho muito importante ter esse recorte racial e por gênero", explica a designer de moda Thalita Ramos de Oliveira Ignácio da Silva, que é atendida por uma psicóloga negra há três anos em São Paulo (SP). "Ela não vai achar que estou me vitimizando".


Mulher negra e o racismo: formas de entender a dor

A consultora de Marketing e Eventos Nathalia Alves, de São Paulo (SP), é uma mulher negra que foi atrás de terapeuta negra depois de ter vivido uma situação de racismo no ambiente profissional, em que recebeu "áudios agressivos" de uma pessoa envolvida em um trabalho. "Eu entendi que apenas uma mulher igual a mim entenderia essa dor. E poderia ajudar no processo de 'cura'. Para mim, é isso: o que mais ajuda ser uma profissional negra é que não preciso justificar as situações de racismo para explicar o que sinto. Então, podemos ser mais objetivas".


A produtora audiovisual Ana Cristina Pinho, de São Paulo (SP), faz terapia há 15 anos, mas foi a necessidade de "lidar com o racismo de forma mais aprofundada" que a fez procurar uma terapeuta negra. "A culpa não é minha" Há três anos sendo analisada por uma terapeuta negra, Ana Cristina passou a enxergar suas vivências, como a vida profissional, sem a culpa que recaía sobre seus ombros pelo fato de ser uma mulher negra em diferentes espaços. "A mudança para uma afro-terapeuta me fez entender e melhorar muitas questões pessoais. Uma delas foi a de que o racismo estrutural faz parte da nossa sociedade", ela diz.


Profissionais de Psicologia e a conduta sobre racismo

Vale dizer que a procura por profissionais negros faz parte de uma preferência definida por essas pessoas, sem orientação expressiva de nenhum órgão da categoria. "Pessoas podem se consultar com qualquer pessoa, o paciente também pode encontrar acolhimento com um profissional que não seja negro", explica Mariana.


O Conselho Federal de Psicologia (CFP) tem material de orientação em que destaca a necessidade de que os profissionais entendam que "há um sofrimento psíquico peculiar, sutil e explícito presente no cotidiano da vida de pessoas negras". Há também uma Resolução de 2002 que estabelece "normas de atuação para os psicólogos em relação ao preconceito e à discriminação racial".