No dia 12 de março deste ano, Paulo Borges reuniu equipe e as principais empresas de moda do país e decidiu que não haveria a edição número 49 da São Paulo Fashion Week, prevista para dali a um mês. “Foi a primeira vez em 25 anos que isso aconteceu. Fomos na contramão dos governos municipal, estadual e federal, cancelamos antes de qualquer decreto”, diz Borges, que fundou e comanda o maior evento de moda do país.

Este 2020 havia sido traçado para trazer novidades e celebrar os 25 anos da SPFW. Mas a pandemia inverteu planos e lógicas, brecou o consumo e impôs novas atitudes. Em conversa para Universa, Borges diz que a edição de número 50 acontecerá entre os dia 4 e 8 de novembro.

Na entrevista, ele conta afirma também que as marcas que desejarem fazer parte do evento precisarão estar alinhadas com os valores da SPFW -como isso será feito ainda é fruto de discussão. “O participante precisa ter princípios e ideais em comum com os nossos.” Leia a seguir, trechos da conversa.

UNIVERSA – Esse era para ser um ano de comemorações pelos 25 anos do maior evento de moda do país. Como foi a tomada a decisão de adiar a edição de abril da SPFW?

PAULO BORGES – A gente entende que estamos próximos dos trinta, então fizemos um desenho de como seria 2020 enquanto celebração, mas já visando os caminhos que queremos mostrar para todo mundo. Pensamos que a partir deste ano todo o processo se transformaria. Começaríamos em abril e seria tudo espalhado pela cidade, em lugares abertos e icônicos, já tínhamos esse conceito de trabalhar com diversidade de ambientes e formas. Além disso, tudo seria transmitido de forma digital, para que as pessoas pudessem ter um maior acesso. Ninguém estava pensando em pandemia. No dia 12 de março, pegamos as pessoas de surpresa e divulgamos que iríamos cancelar a temporada. Foi a primeira vez em 25.

Quando a gente começar a poder circular novamente, acredito que o ritmo de consumo vai voltar a ter um fluxo maior, quase igual ao que já teve. Só não será nesse curto prazo, porque sairemos de um mundo com menos dinheiro, com mais desemprego e feridas emocionais, mas isso tudo se cura. Acho que teremos um ganho maior, para depois voltar para o modelo que já tínhamos. A edição de outubro do SPFW está mantida? Que mudanças podemos esperar em relação às edições anteriores? Mudamos a Fashion Week para 4 a 8 de novembro, para ganhar mais tempo de acomodação e de entendimento dos protocolos do evento. A edição já está sendo feita, tenho falado diariamente com estilistas e parceiros.

Tiramos algumas coisas da agenda por conta dos recolhimentos, então não haverá nenhum convidado vindo de fora do país. Inclusive, estamos pensando em ferramentas para que jornalistas de outros lugares do Brasil não precisem sair de suas cidades para cobrir o evento. Teremos o físico com o digital, já que os ambientes dos desfiles podem ser construídos com o distanciamento que for necessário entre os convidados e entre a equipe. Enquanto não tivermos uma segurança na questão da saúde, algumas adaptações precisarão ser feitas. Vamos fazer os desfiles em uma sala maior, temos um desenho para receber 400 pessoas, mas se tiver que ser bem menos, tudo bem.

Com isso, a Conferência Internacional não vai mais acontecer? Como o SPFW+ será replanejado? Nós decidimos transferir a Conferência Internacional (que seria sobre sobre criatividade, com a participação de convidados nacionais e internacionais) para a programação do ano que vem, neste ano ela não acontecerá. Os encontros criativos que fazem parte do Festival SPFW+ começarão a acontecer em setembro e outubro, neste momento estamos nos preparando para que eles aconteçam de forma digital e de maneira interativa. No projeto inicial, os encontros aconteceriam no Farol Santander, onde cabem 100 pessoas na sala, então já tínhamos programado a opção streaming para todo mundo que se inscreve.

Pensar a produção dividida em duas temporadas ainda faz sentido para os estilistas brasileiros? Como isso impacta o formato da SPFW? O desfile dentro de uma semana de moda é uma mensagem, que acontece em um tempo de construção da imagem daquela marca. Tem gente que faz desfile uma vez por ano, tem gente que faz quatro? A gente optou por ter dois momentos, mas não necessariamente todo mundo que participa do evento está presente nessas duas vezes do ano, alguns já estão só uma vez, porque têm o seu tempo e a gente entendeu que esse tempo precisa ser respeitado. Há cinco anos, nós paramos de usar a nomenclatura primavera/verão ou outono/inverno, porque a velocidade de criação, produção.

Durante esses últimos meses, com a explosão dos protestos contra a morte de George Floyd nos Estados Unidos, aqui no Brasil também houve manifestações e denúncias de modelos negras, que retratavam situações de preconceito e sofrimento durante a seleção para desfiles. Como tornar a próxima edição mais inclusiva para além das cotas? Eu fiz parte de um grande diálogo recentemente que viralizou bastante, abri o meu canal para ouvir o que as pessoas queriam dizer e foi muito emocionante. Esse é um tema vital para a minha vida, primeiro pela questão que eu falo de pensar no humano, e segundo porque eu absolutamente acredito na igualdade.