Fonte: Rodrigo Casarin, UOL

Em novembro do ano passado, publiquei uma entrevista com Vagner Amaro sobre o trabalho que e o editor faz à frente da Malê, casa especializada em literatura afro-brasileira. Na ocasião, ele comentou como encara a história dos nossos escritores negros: “Esta trajetória não acontece na literatura brasileira, esta trajetória é a literatura brasileira, se iniciando com o negro Teixeira e Sousa, primeiro romancista brasileiro, com a negra Maria Firmina dos Reis, primeira romancista brasileira, passando pelo negro Paula Brito, importantíssimo editor brasileiro do século 19, passando pelo negro Machado de Assis, maior escritor brasileiro…

Com os embates antirracistas tomando as ruas do mundo, voltei a conversar com Vagner para nos aprofundarmos nesse ponto: a presença de autores negros ao longo da história literária nacional. O editor lembra do “Panorama Editorial da Literatura Afro-Brasileira Através dos Gêneros Romance e Conto”, estudo feito pelos pesquisadores Luiz Henrique Silva de Oliveira e Fabiane Cristine Rodrigues, para indicar números que espantam e ao mesmo tempo escancaram o racismo sistêmico: entre 1859 e 2016 foram publicados comente 61 romances de autores negros, enquanto entre 1839 e 2016 saíram apenas 88 livros de contos de autores negros. (A pesquisa pode ser lida aqui: http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/emtese/article/view/11269)

Vagner aponta que essa estrutura racista produz silenciamentos e foi pouco discutida ao longo do tempo, mas começou a ser desfeita com a chamada geração Cadernos Negros, referência à clássica publicação de poetas afro-brasileiros lançada em 1977. Apesar das adversidades, ele ressalta: enxerga a literatura negra brasileira como a mais representativa de nosso país:

“Na maioria dos casos, ela é mais brasileira do que todo o resto que é produzido. Isso no sentido de ser feita por representantes literários descendentes dos povos que mais marcaram a cultura brasileira, com suas visões de mundo, tecnologias, línguas, ritmos e tantos outros conhecimentos. Mais brasileira por mirar na coletividade e em grandes temas. Mais brasileira porque o Brasil é um país de pobres e boa parte dos escritores negros foram e, ou, são pobres – o que vem garantindo possibilidades mais interessantes de representação do pobre, do povo, assim como do outro que é o rico. A cultura brasileira, como a entendemos hoje, é essencialmente negra. Então, quanto mais negra for a nossa literatura, mais brasileira ela será”.

Para o editor, essa visão se estende a todos os autores que fazem uso da cultura negra nacional em seus textos. E, olhando para um dos maiores fenômenos recentes de nossa literatura, diz encarar o crescente sucesso de Conceição Evaristo menos como um descobrimento da autora e mais como um reconhecimento de leitores que se enxergam na obra da mineira. “É o Brasil que lê literatura, recompondo seu espelho e voltando a se enxergar”.

Guia de leitura

Também retomei o papo com Vagner porque, na última ocasião, uma pergunta tinha ficado de fora da edição da entrevista devido ao tamanho e à complexidade da resposta. Estava claro que o tema da questão mereceria ser tratado com calma em outra oportunidade. Quis saber dele o seguinte: Para quem quiser mergulhar na história da literatura negra, quais são os títulos e autores que você considera fundamentais? Seria possível falar numa espécie de cânone literário negro?

O editor dispensou a ideia canônica; não ajudaria a compreender a situação da autoria negra no Brasil. Preferiu falar na trajetória desses escritores, como lembrei há pouco. E deu muitas dicas. Para começar, recomendou quatro livros para quem deseja refletir: “Literatura Negro-brasileira”, de Cuti (Selo Negro), “Brasil Autorrevelado”, de Miriam Alves (Nandyala), “Literatura Afro-brasileira: 100 Autores do Século 18 ao 21”, de Eduardo de Assis Duarte (Pallas), e “Negrismo”, de Luiz Henrique Silva de Oliveira (Mazza). Além disso, deixou uma lista para quem quiser se aprofundar nesse universo:

“A Cor da Demanda”, de Éle Semog (Malê).

“A Lei do Santo”, de Muniz Sodré (Malê).

“Carro do Êxito”, de Oswaldo de Camargo (Córrego).

“Casa de Alvenaria”, de Carolina Maria de Jesus (Lebooks).

Clara dos Anjos, de Lima Barreto (Penguin/ Companhia das Letras).

“Com A Palavra Luiz Gama” (Imprensa Oficial).

“Contos Escolhidos”, de Cuti (Malê).

“Correntezas e Outros Estudos Marinhos”, de Lívia Natália (Ogum’s Toques Negros).

“Enquanto os Dentes”, de Carlos Eduardo Pereira (Todavia).

“Estação Terminal”, de Sacolinha (Nankin).

“Estela sem Deus”, de Jefferson Tenório (Zouk).

“Gosto de Amora”, de Mário Medeiros (Malê).

“Insubmissas Lágrimas de Mulheres”, de Conceição Evaristo (Malê)

“Leite do Peito”, de Geni Guimarães (Mazza).

“Maréia”, de Miriam Alves (Malê).

“Não Pararei de Gritar”, de Carlos de Assumpção (Companhia das Letras).

“Mural de Ventos”, de Salgado Maranhão (José Olympio).

“Negra Nua Crua”, de Mel Duarte (Ijumaa).

“O Caçador Cibernético da Rua Treze”, de Fábio Kabral (Malê).

“O Crime do Cais do Valongo”, de Eliana Alves Cruz (Malê).

“Oliveira Silveira: Obra Reunida” (Corag).

“Poemas Antológicos de Solano Trindade” (Nova Alexandria).

“Sobre-viventes”, de Cidinha da Silva (Pallas).

“Terra Negra”, de Cristiane Sobral (Malê).

“Úrsula”, de Maria Firmina dos Reis (Fora do Ar).

“Vozes Guardadas”, de Elisa Lucinda (Record).

“Zanga”, de Davi Nunes