Fonte: Paula Adamo Idoeta, do UOL
Em Cidade Tiradentes, uma das áreas mais vulneráveis de São Paulo, projeto de simulação de assembleia das Nações Unidas estimula a negociar, se expressar, perder a timidez e ‘ampliar a visão de mundo’. “Alguma delegação gostaria de se pronunciar? Por favor, ergam suas placas. A mesa reconhece a delegação de Portugal”, diz a mediadora. “Boa tarde, senhores delegados”, inicia a representante de Portugal. “A violência contra imigrantes é um dos subtópicos que devem ser abordados. Eles muitas vezes não tiveram escolha. Foram forçadamente tirados de seus países por causa de conflitos internos e externos. Seria importante chegarmos a um consenso sobre isso.”
O diálogo acima, mais familiar a sessões da ONU em lugares como Genebra ou Nova York, na verdade ocorreu em uma escola pública em uma das áreas mais vulneráveis de São Paulo, onde um grupo de 35 jovens passou um semestre aprendendo sobre política externa global e formas de debatê-la em público e buscar consenso.
O ápice desse processo ocorreu no dia 22 de novembro, quando parte desses jovens da Escola Municipal Oswaldo Aranha Bandeira de Mello, em Cidade Tiradentes (extremo leste da cidade), participou de uma sessão simulando a Assembleia Geral das Nações Unidas, em que delegações de diferentes países têm de dialogar e encontrar pontos em comum para produzir resoluções conjuntas, dentro de regras diplomáticas.
Nessa simulação final, os alunos assumiram o papel de delegados de nove países escolhidos por eles África do Sul, Argentina, Canadá, Turquia, EUA, Japão, Nigéria, Portugal e Índia, tendo que replicar na sessão os argumentos que esses países costumam defender de fato na política externa da vida real.
Os dois alunos “representantes” dos EUA, por exemplo, tinham de apresentar argumentos que justificassem a restrição americana à entrada de imigrantes, mesmo que os jovens pessoalmente não concordassem com elas. Já a delegação canadense defendia argumentos mais favoráveis à ideia de fronteiras abertas para a imigração.
O projeto, chamado Monuem (Modelo da ONU para o ensino médio), é baseado em um modelo criado há cerca de 40 anos pela Universidade Harvard, para estimular alunos a debater, falar em público e escutar os demais. Já existe em algumas instituições privadas e é promovido pelo Escritório de Representação do Itamaraty em São Paulo (Eresp) em outras sete escolas da rede estadual paulista. Com o instituto Global Attitude, o semestre recém-concluído na Oswaldo Aranha Bandeira de Mello, para alunos do 8º ano do fundamental ao 3º ano do ensino médio, foi o piloto na rede municipal de ensino.
“É importante essa capacidade de argumentar e assumir posições que nem sempre são as suas, e negociar com seu opositor para fazer uma resolução conjunta para um problema”, defende Bruna Gonçalves, estudante de Direito que atua no projeto como mediadora, representando as instâncias neutras de negociação da ONU. “Tem muita gente criticando direitos humanos sem saber o que são, então precisamos debater. Me inscrevi como voluntária porque é uma forma de passar isso para a próxima geração.”