Com o voto, podemos dar sentido ao discurso de que queremos uma sociedade mais justa

Quando escolhemos gestores e gestoras públicos para nossa cidade, escolhemos parte de nossa vida e nosso bem-estar pelos próximos anos, pois eles vão lidar com as questões que mais nos assolam, como a aflição e o horror que sentimos ao assistir a execuções sumárias de negros, assassinatos a sangue-frio.

Tais cenas reviram memórias de capítulos de nossa história: porões da escravidão e da ditadura, as quais não foram suficientemente expurgadas, retornando permanentemente como fantasmas às nossas vidas, considerando que um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos no Brasil.

Amplos segmentos, antes em silêncio diante da violência racial, vêm se manifestando, e o combate ao racismo vem ganhando relevância no debate público. Isso é fundamental, pois não há como apontar e implementar soluções para um problema cuja existência é negada por uma quantidade considerável de pessoas e instituições, felizmente menos numerosas a cada dia.

É fundamental saber o que pensam os candidatos sobre a existência do racismo, e a necessidade de políticas públicas para combatê-lo, não apenas agora, que o tema está na ordem do dia, mas ao longo das suas trajetórias. Qual foi a posição do candidato com relação às políticas de ação afirmativa nas universidades, no trabalho ou em relação à violência policial, entre outras áreas?

Qual foi seu posicionamento e de seu partido com relação ao teto de gastos públicos, que iniciou o desmonte do SUS e de toda a rede de proteção com que conta a população periférica e pobre para enfrentar doenças que a afligem?

O candidato ou candidata já colocou ou tem um programa de governo que põe em prática a Lei de Diretrizes e Bases, alterada pela lei 10.639/03, que instituiu o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas, visando contribuir para uma cultura escolar antirracista?

Reconhece em suas políticas e programas as populações mais afetadas pela pandemia da Covid-19?

No caso de São Paulo, segundo pesquisa da Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ibope (2019), a maioria dos paulistanos tem a avaliação de que se manteve ou aumentou a discriminação contra a população negra nos últimos dez anos, e quase 70% entendem que essa discriminação ocorre principalmente nos shoppings e nos comércios.

O assassinato de mulheres cresceu 167%, e 60% delas avaliam negativamente a administração municipal na área da segurança pública, segundo a Rede, em 2020.

Caiu dez pontos percentuais a percepção de que a cidade de São Paulo é tolerante com a população LGBTQIA+, e 60% consideram importante a implementação de políticas públicas municipais para a igualdade de direitos para LGBTQIA+.

Cuidar de uma cidade complexa como São Paulo é reconhecer que não faltam recursos para torná-la mais sustentável e igualitária, mas isso só ocorrerá a partir de um plano consequente que enfrente as desigualdades.

Onde a desigualdade atinge níveis alarmantes, toda a população vai sendo impactada. Aumentam a criminalidade e a violência, e a cidade adoece. A sociedade se desorganiza, se desequilibra, e ninguém sente bem-estar social.

Assim, tornar a cidade mais acolhedora para seus munícipes é identificar prioridades e necessidades da população, nos diferentes distritos, e implementar políticas públicas mais inclusivas.

Com nosso voto, podemos conferir sentido ao discurso de que queremos uma sociedade mais justa para todas e todos, sem deixar para trás segmentos populacionais mais vulneráveis a violações de direitos fundamentais.