Um jovem negro, de 22 anos, integrante da Orquestra da Grota, em Niterói (RJ), foi preso nesta quarta-feira (2) suspeito por roubo em 2017. Porém o presidente da orquestra alega que Luiz Justino estava tocando em uma padaria que fica a quase 8 km do local do crime no momento em que houve o roubo.

De acordo com Paulo Tarso, presidente da orquestra, o jovem foi preso após tocar nas ruas. Ele foi revistado e levado para a delegacia para averiguação, quando foi constatado que havia um mandado de prisão em aberto referente a um crime que teria ocorrido há três anos. Luiz seria o suspeito do roubo, mas Tarso questiona a versão.

“Levaram ele na quarta-feira para a delegacia e de lá ele não saiu mais. Um jovem que estuda, tem residência fixa, mas é negro e pobre. A polícia disse que o mandado de prisão foi expedido depois que a vítima reconheceu ele por foto como autor do crime, mas o Luiz não tinha nem passagem pela polícia. Como foi feito esse reconhecimento se ele não era fichado?” – Paulo Tarso, presidente da Orquestra da Grota.

Paulo Tarso disse ainda que Luiz Justino está há mais de dez anos na orquestra e tinha contrato, na época do roubo, para se apresentar em uma padaria no bairro de Piratininga, bairro nobre de Niterói.

“Ele estava lá tocando, mas me parece que é mais fácil colecionar jovens negros e pobres e acusá-los de crimes que não cometeram.” – Paulo Tarso, presidente da Orquestra da Grota.

Luiz Justino chegou à Orquestra da Grota com 6 anos de idade. Ele é violoncelista. Segundo Paulo, ele é um jovem tímido, tem uma filha de um ano e é de família muito humilde. O sonho do rapaz era ser reconhecido pelo seu trabalho de músico.

“Ele estava feliz, em um momento que estava recebendo mais convites para tocar”, lamentou o presidente da orquestra.”

Amigo do jovem preso, o musicista Rodrigo Soares disse que eles passaram a última quarta-feira tocando nas ruas de Niterói. “Quando estávamos indo embora, nos separamos e ele continuou com o outro integrante do grupo e foram abordados no terminal [de ônibus] de Niterói. Puxaram lá um mandado no nome dele de roubo em 2017, mas nesse dia ele estava tocando com os tios em uma padaria”, afirmou.

A mãe do músico, Angélica Costa, disse que jovem está preso em Benfica, “Nunca imaginei que fosse passar por isso. Nem consegui ver meu filho ainda e não sei nem como ele está”.

A Le Dépanneur, padaria onde o jovem tocava, informou que a Orquestra de Cordas da Grota foi contratada para tocar aos domingos na casa e que o contrato terminou em 2019 devido a mudança de endereço.

“No dia 05 de novembro de 2017 a Orquestra tocou em nossa loja, no período entre 9h e 11h. Infelizmente não podemos afirmar quais músicos estavam nesse dia. A Le Dépanneur está à disposição da Justiça para colaborar no que pudermos”.

Procurada, a Polícia Civil do Rio disse que “o inquérito, à época, foi concluído com base em provas colhidas na investigação e encaminhado para apreciação do Ministério Público. O inquérito está com a Justiça”.

Crime foi cometido em 2017

O crime que teve o suposto envolvimento de Luiz Justino e fez com que ele tivesse um mandado de prisão expedido ocorreu em 5 de novembro de 2017. De acordo com o boletim de ocorrência, a vítima contou à polícia que foi abordada, por volta de 8h30, por quatro criminosos armados que estavam em um carro branco.

Todos os pertences da vítima foram levados e na investigação policial consta que Luiz Justino foi reconhecido por fotografias. No entanto, de acordo com amigos, o musicista se apresentava no evento Café Musical promovido pela padaria Le Déppanneur, no bairro de Piratininga.

Foi expedido um mandado de prisão preventiva contra Justino que acabou sendo cumprido na última quarta-feira, quando ele foi levado para a delegacia por estar sem documento de identidade. Na unidade, foi verificado a existência do mandado de prisão.

Segundo caso em um mês em Niterói

No mês passado, outro jovem negro foi preso após ser acusado de cometer um roubo a mão armada no centro de Niterói. A defesa do rapaz alegou que o reconhecimento do jovem ocorreu a partir de fotos antigas extraídas das redes sociais do rapaz, quando ele tinha outra aparência.

Segundo a advogada, Cristiane Lemos, as características informadas à polícia sobre o autor do roubo não condizem com a aparência de Danilo Félix Vicente de Oliveira. De acordo com ela, o assaltante era pardo e possuía cabelo baixo enquanto Danilo é negro e usa cabelo trançado. Para a família, a prisão ocorreu em decorrência de racismo.