Negro, muçulmano e revolucionário, ele pregou a luta armada contra os brancos. Acabou morto num crime que segue sem resposta, mesmo cinco décadas depois
Fonte: Alexandre Carvalho, do Aventuras na História
Malcolm X sabia que seu destino era morrer jovem. E que sua morte seria violenta. Em sua autobiografia, ele explicou: “Em qualquer cidade, aonde quer que eu vá, homens negros estão observando cada movimento que eu faço, esperando pela chance de me matar. Quem escolhe não acreditar no que estou dizendo não conhece os muçulmanos da Nação do Islã. Sei também que posso morrer de uma hora para outra nas mãos de brancos racistas. Ou pode ser um negro que tenha passado por lavagem cerebral, e que acha que, ao me eliminar, estaria ajudando o homem branco”.
Essas impressões não eram coitadismo do líder ativista. Numa madrugada de fevereiro de 1965, um coquetel molotov explodiu na sala de estar de sua casa, em Nova York, com fragmentos de uma segunda bomba encontrados mais tarde na parte traseira da residência, bem onde ficavam os quartos da família. Foi o fracasso desse outro explosivo que permitiu que Malcolm, sua esposa e quatro filhas conseguissem fugir do fogo, alcançando a rua sem tempo de tirar os pijamas.
“Se essa bomba tivesse atravessado a janela, ela teria atingido em cheio uma menina de 6 anos, uma de 4 anos e uma de 2”, declarou, indignado – ele ainda era pai de um bebê de 7 meses, que ficava em outro cômodo. “Se o ataque fosse bem-sucedido, eu pegaria meu rifle e iria atrás do primeiro que visse pela frente.”
A polícia não identificou os responsáveis pelo atentado – nem se esforçou para achar quem estivesse ameaçando um líder negro tão inconveniente. Mas Malcolm X tinha certeza: era um ato da Nação do Islã, a organização muçulmana com a qual vinha trocando acusações graves desde que deixou de ser um de seus principais porta-vozes, um ano antes. Só que o atentado não chegou a intimidá-lo. Ele manteve sua agenda de discursos, até porque calar-se representaria uma vitória de seus inimigos. Brancos e negros.
Passada uma semana dos coquetéis molotov, Malcolm X convocou a família para acompanhá-lo em uma palestra que faria no teatro Audubon Ballroom, no bairro negro do Harlem. A ocasião era especial, porque ele estaria ali representando sua nova entidade de ativismo, a Organização da Unidade Afro-Americana. Não que a importância do evento o cegasse para os riscos que estava correndo.
Segundo seu biógrafo, Alex Haley (famoso pelo best-seller Negras Raízes), Malcolm X tinha tanta certeza de que poderia ser assassinado que passara os últimos dias atrás de advogados: queria tratar de seguro de vida e de um testamento. Mas faltar a um compromisso público estava fora de cogitação. “Vou amenizar um pouco essas tensões dizendo para os negros pararem de brigar entre si. Porque isso tudo é parte da grande manobra do homem branco para nos manter uns contra os outros.”
Na hora do discurso, Malcolm X se aproximou do microfone e fez a saudação tradicional muçulmana para seus ouvintes: As-Salaam-Alaikum – que aqui no Brasil adaptamos para salamaleque, e cujo significado é que a paz esteja com vocês. Mas não foi paz o que ele teve em resposta ao cumprimento. Imediatamente o auditório virou um cenário de bangue-bangue. Aproveitando a distração de uma briga na plateia, que atraía a atenção dos guarda-costas, um homem negro subiu no palco com uma espingarda com o cano serrado e mais duas armas de fogo.
Disparando contra Malcolm X, acertou-o no queixo, na mão e no peito – e outros tiros vieram de partes diferentes do auditório. Quando os disparos começaram, sua esposa, Betty Shabazz, teve uma reação instintiva, materna: jogou-se na direção de suas filhas pequenas, sentadas próximas ao palco, para transformar o próprio corpo num escudo que salvasse a vida das crianças – ao mesmo tempo impedindo-as de ver com detalhes os ferimentos em seu pai.
Os tiros não acertaram as garotas nem a mãe delas, mas derrubaram o palestrante para trás. Ele caiu sobre duas cadeiras antes de se estatelar no chão. E assim a profecia do próprio 
Malcolm X se concretizava: um dos maiores ícones da resistência contra a perseguição aos negros nos EUA morreu jovem, aos 39 anos, e de maneira especialmente violenta. A polícia constatou que pelo menos 16 balas haviam acertado o corpo do ativista. Um destino de certa maneira previsível naquela época, meados dos anos 1960, quando parte do país queria frear a qualquer preço – assassinatos, inclusive – a luta dos negros pelo fim de uma segregação que predominava desde o fim da escravidão.
O reverendo Martin Luther King Jr. teria o mesmo destino três anos depois, quando recebeu uma bala que atravessou sua bochecha direita, esmagou sua mandíbula e percorreu a medula espinhal até finalmente se alojar em seu ombro. Mas a cor da pele, a luta pelos direitos dos negros e a morte por armas de fogo eram as poucas coincidências entre esses dois personagens. Luther King era cristão, pastor protestante, enquanto Malcolm X praticava a fé em Alá. Ele via o cristianismo como a religião do homem branco e “do negro que queria se transformar em branco”.
Luther King ganhou um Nobel da Paz por seu combate à desigualdade racial promovendo a resistência não violenta, inspirado pelo indiano Mahatma Gandhi. Malcolm X acreditava ser impossível resistir a linchamentos, a tiros e à própria violência do Estado contra os negros sem devolver, em igual medida, a ferocidade e o ódio com que os de pele escura eram tratados nos Estados Unidos. “É um crime ensinar um homem a não se defender quando ele é vítima constante de ataques brutais”, ele diria.
Mas a maior diferença entre esses dois heróis da história americana estava na maneira como viam o futuro dos negros. Martin Luther King Jr. fez um discurso inesquecível, afirmando que tinha um sonho… um sonho de que um dia os descendentes de escravos e os de proprietários de escravos se sentariam juntos à mesa, em total fraternidade. O que ele defendia era a absorção do negro na sociedade dominada pelos brancos. Já o sonho de Malcolm X era bem diferente.
Ele dizia que não se considerava americano, pois os negros que viviam nos Estados Unidos eram africanos cujos ancestrais haviam sido raptados e submetidos ao cativeiro na América. Para ele, o homem branco era o inimigo – ou o demônio. Seu sonho não era o negro aceito pela sociedade branca. Era o negro protagonista de sua própria sociedade. Um protagonismo obtido à base de confronto e, sobretudo, da consciência de que os brancos usarão de todas as estratégias para permanecer dominantes – para estender à vida contemporânea a relação entre o sinhô e seus escravos, entre a casa grande e a senzala. “Quando Malcolm fala, ele fala diretamente ao coração dos negros”, afirmou em 1963 o escritor e ensaísta James Baldwin, talvez o maior expoente entre os pensadores negros. “Ele articula seu sofrimento, o sofrimento que há tanto tempo é negado neste país. Essa é a grande autoridade de Malcolm sobre qualquer um de seus públicos. Ele corrobora a realidade deles, diz que eles realmente existem.”
Enquanto Martin Luther King Jr. pregava a integração entre brancos e negros, Malcolm X achava que não havia alternativa melhor que a separação – embora uma que não fosse desvantajosa para os de sua cor. Era uma perspectiva que ele herdara dos pais militantes, e que foi reforçada nos mais de seis anos que passou na prisão – uma detenção que ainda não tinha a ver com suas ideias revolucionárias, mas com a pura e simples delinquência.