O racismo não nos dá descanso. Já falei essa frase algumas vezes, mas ela resume exatamente o que acontece. A cada denúncia de discriminação racial que toma conta das redes sociais meu corpo responde. Eu adoeço. Aquela situação perversa dói em mim. Existe uma resposta corporal, pois nenhuma ofensa é um caso isolado, reverbera em quem tem a cara, a pele igual.

E quando a situação não ocorre diretamente com a gente nos obrigam a vivenciar essas dores. Temos que nos posicionar, temos que falar sobre isso.

Não se preocupam se aquela situação, que em nosso país é recorrente, desperta gatilho. Aqui, a gente vive em estado permanente de tensão, se questionando: quando será que vai ocorrer comigo? Não é pessimismo, é realismo. Notícias de caso de racismo e discriminação não param de chegar e muitas vezes, nem dá tempo se recuperar.

Vamos acumulando dores e choros. E no desespero de criar estratégias para não ser a próxima vítima. Quem tem a pele escura conhece as artimanhas da sobrevivência. Entrar na loja e nunca abrir a bolsa, nem mesmo para simplesmente pegar o celular, andar com a companhia do segurança e deixar nítido que não vai roubar, pedir a nota fiscal e guardar, e muitas vezes levar algum item sem precisar, apenas para não gerar desconfiança.

Quem é preto sabe! Mas quem não é acredita que pode e deve nos cobrar um posicionamento. “Ei, você viu isso? Não falar nada?”. Por mais que seja compreensível querer saber o que a gente acha, é preciso entender que isso nos adoece.

O racismo nos mata e nos enlouquece. Já observou que a população negra tem mais predisposição a patologias que têm ligação direta com questões emocionais? Hipertensão, diabetes, doenças oncológicas. E assim vamos morrendo. Na bala, na depressão e na angústia de falar das nossas dores e ainda ser ridicularizada.

Portanto, acredite, muitas vezes, ao ver uma pessoa preta não se pronunciar em um caso de racismo, não é concordar, é tentar se recuperar de uma dor que nunca passou!