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18/07/2018

Imagem: Descendentes de Jonathan realizam cerimônia no local onde ele foi enterrado na Islândia – Foto: NYT

Islândia descobre seu primeiro negro

Estudo revela 780 descendentes de ex-escravo Hans Jonathan

Certamente, você nunca ouviu falar desta história. Para ser sincero nem eu. Histórias como a de Hans, não só nos inspiram, mas nos mostram que é possível fazer a diferença.

A história que parece tão distante, é a mesma luta de sempre: Um negro lutando para ser “humano”. Uma história esquecida. Uma história resgatada. A loucura esquizofrênica do racismo mais uma vez vencida. O negro é humano.

A praga viral que é o racismo, não resiste ao seu antidoto: o conhecimento, a desconstrução das raças e a defesa incondicional da humanidade presente em todo ser humano.

Na Dinamarca, Hans Jonathan (ele não tem sobrenome) foi escravo, lutou numa guerra, perdeu uma famosa disputa judicial sobre escravidão se livrou da servidão fugindo para a Islândia, mas, sua extraordinária história não desperta muito interesse.

O passado colonial quase desapareceu da memória coletiva dinamarquesa. O país tem comunidades com laços históricos com a Groenlândia e com as Ilhas Feroe, mas são relativamente poucos habitantes com ligações ancestrais com as antigas colônias dinamarquesas do Caribe, África e Índia.

Quando uma descendente sua nascida nos Estados Unidos pediu ao governo dinamarquês que o declarasse, postumamente, um homem livre, recebeu apenas uma polida rejeição.

Quem hoje passa em frente da mansão de cinco andares situada a menos de cem metros do Palácio Real de Amelienborg, em Copenhague, não encontra nenhum marco histórico falando da família Schimmelmann, que era dona do imóvel, ou dos escravos que lá viviam, entre eles, Hans Jonathan.

“Quem fala ou escreve sobre comércio de escravos colonialismo dinamarquês dirige-se a surdos”, disse Gilsi Palsson, professor de antropologia da Universidade da Islândia, autor de The Man Who Stole Himself: The Slave Odissey of Hans Jonathan.

Hans Jonathan nasceu em 1784 em St. Croix, na época, possessão dinamarquesa e hoje parte das Ilhas Virgens Americanas. Sua mãe era uma escrava doméstica negra de propriedade dos Schimmelmanns, uma família germano-dinamarquesa. Seu pai era branco.

Muito tempo depois de sua morte, Hans Jonathan finalmente recebe a merecida atenção. Embora já fosse uma espécie de celebridade na Islândia e tenha uma biografia bem recebida, ele agora é também centro de um estudo genético inovador.

Acredita-se que Hans Jonathan tenha sido o primeiro negro a viver na Islândia.

Quando Hans Jonathan tinha 7 anos, os Schimmelmanns o levaram para Copenhague. Em 1801, ele se alistou como voluntário para lutar pela Marinha dinamarquesa, saindo incólume de uma feroz batalha naval contra os ingleses.

“Foi um combate furioso”, disse Palsson, cuja biografia de Hans Jonathan foi publicada na Islândia em 2014 e em inglês em 2016. “Seu navio foi bombardeado pesadamente.”

Hans Jonathan ganhou a simpatia de seus oficiais, que falaram dele para a família real dinamarquesa. O príncipe herdeiro e governante de facto, futuro rei Frederik VI, escreveu em uma carta que Hans Jonathan era “considerado livre e detentor de direitos”.

A Revolução Francesa trouxe novas ideias sobre igualdade e liberdade. Como várias outros países colonialistas, a Dinamarca ainda permitia a escravidão no Caribe, mas em casa movimentos abolicionistas começaram a ganhar força. Entretanto, o status dos escravos, trazidos das colônias, era ainda incerto.

Quando Henrietta Schimmelmann tentou reclamar a posse de Hans Jonathan para levá-lo de volta para St. Croix, e ele foi ao tribunal confirmar sua condição de homem livre, num caso que ficou famoso à época. Mas, por motivos desconhecidos, não conseguiu apresentar a carta do príncipe Frederik. Em 1802, o tribunal negou sua reivindicação e determinou que ele voltasse a pertencer aos Schimmelmanns, que quiseram vendê-lo em St. Croix.

Hans Jonathan então fugiu para a Islândia, estabeleceu-se no vilarejo de Djupivogur, casou-se com uma islandesa, teve filhos e viveu como
homem livre até a morte, em 1827.

Embora quase esquecido na Dinamarca, na Islândia Hans Jonathan se tornou muito conhecido, uma figura folclórica. Kari Stefansson, diretor da empresa deCODE Genectics, cujo pai era de Djupivogur, disse que as pessoas gostam muito dessa história que, segundo ele, “mostra que o racismo não é inato, mas um comportamento aprendido.”

DeCODE publicou neste ano um estudo aproveitando a vantagem do fundo genético altamente homogêneo da Islândia, dos notáveis registros genéticos do país e do lugar único de Hans Jonathan na história islandesa.

Pesquisadores identificaram 780 descendentes vivos do ex-escravo, colheram amostras de 182 e isolaram fragmentos caracteristicamente africanos que só poderiam ter vindo de Hans Jonatthan. Eles conseguiram reconstruir 38% do genoma da mãe de Hans Jonathan e rastrearam o material até a África Ocidental.

“É interessante constatar que fragmentos de um genoma africano foram encontrados nos genomas de islandeses atuais”, disse Stefansson.

Os islandeses já conheciam a história de Hans Jonathan, mas muitos de seus decendentes, que vivem espalhados por vários países, passaram a vida sem saber que tinham como ancestral um negro escravo.

Entre estes está Kirsten Pflomm, gerente de comunicações de Connecticut que, ao pesquisar online seu nome, 15 anos atrás, descobriu ela e toda a família estavam listados em um site escrito em islandês. Kirsten contatou o administrador do site e ficou conhecendo a dramática história do remoto avô.

“Visivelmente branquíssima”, Kristen disse que nunca passou por nada nem de longe parecido com racismo. Ela não está atrás de nenhum pedido oficial de desculpa pelo tempo que Hans Jonathan viveu acorrentado, nem espera maior conscientização dos dinamarqueses em relação à escravidão e à colonização. “Isso é uma discussão mais ampla que não me inclui”, afirmou.

Como disse Michael Pollak: A priori, a memória parece ser um fenômeno individual, algo relativamente íntimo, próprio da pessoa. Mas Maurice Halbwachs, no anos 20-30, já havia sublinhado que a memória deve ser entendida também, ou sobretudo, como um fenômeno coletivo e social, ou seja, como um fenômeno construído coletivamente e submetido a flutuações, transformações e mudanças constantes.

Raphael Vicente
Sócio fundador do Escritório Vicente & Vicente Advogados Associados, Professor universitário, Palestrante, Mestrando em Ciências Sociais na Puc/SP, Vice-Presidente da Comissão de Direito Digital e Compliance da OAB/SP e Coordenador da Iniciativa Empresarial pela Igualdade – um dos maiores movimentos de inclusão do País, reunindo a iniciativa privada, representadas pelas maiores empresas nacionais e internacionais do país, instituições públicas e privadas, sociedade civil organizada e o poder público.

Tradução: Roberto Muniz
Fonte: Martin Selsoe Sorensen, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo – 17 Abril 2018

Postado por: Iniciativa Empresarial pela Igualdade | www.iniciativaempresarial.com.br

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