Fonte: Julianne Cerasoli, UOL

Depois de ter cobrado que a Fórmula 1 se manifestasse sobre os protestos antirracistas que começaram nos Estados Unidos e têm se espalhado pelo mundo, Lewis Hamilton voltou às mídias sociais refletindo como o racismo que sofreu na infância o moldou. “É por isso que eu piloto da maneira como eu faço, porque é muito mais profundo do que um esporte: é porque ainda estou lutando”, disse o inglês, que relatou ter sofrido bullying e inclusive ter apanhado na infância. O piloto cobrou ainda as autoridades ao redor do mundo para que retirem quaisquer homenagens a pessoas que tenham participado do tráfico negreiro.

Tal reivindicação veio depois que a estátua de Edward Colston, que há décadas gerava polêmica na cidade britânica de Bristol por sua relação direta com o escravismo, foi retirada e jogada no porto da cidade durante as manifestações no último domingo. “Nosso país honrou um homem que vendia escravos africanos! Todas as estátuas de homens racistas que fizeram dinheiro vendendo humanos deveriam ser derrubadas! Qual é o próximo? Desafio os governos ao redor do mundo a fazer essas mudanças e implementar a remoção pacífica destes símbolos racistas”, publicou o hexacampeão da F1.

Nesta segunda-feira, depois de ver a repercussão negativa do ato e a proposta de levar a estátua a um museu, Hamilton aumentou o tom de indignação. “A estátua deste homem deve ficar no mar assim como 20 mil almas africanas que morreram na travessia e foram jogados no mar sem velório ou enterro. Ele os roubou de suas famílias, de seus países, e não deve ser celebrado! Deveria ser substituído por um memorial lembrando aqueles que ele vendeu e que perderam suas vidas.”

As manifestações dos últimos dias têm feito Hamilton refletir sobre o que ele mesmo passou em sua infância na cidade industrial de Stevenage, ao norte de Londres, onde ele vivia em um apartamento subsidiado pelo governo britânico para famílias de baixa renda com seu irmão, pai e madrasta. “Tenho lido sobre o que está acontecendo em nossa luta contra o racismo, e isso trouxe muitas lembranças difíceis da minha infância. São memórias vivas dos desafios que enfrentei quando era uma criança, como tenho certeza de que muitos de vocês que conviveram com racismo ou qualquer tipo de discriminação enfrentaram”, publicou o inglês em suas mídias sociais.

“Falei muito pouco sobre minhas experiências pessoais porque me ensinaram a engolir, a não mostrar fraquezas, a matá-los com amor e batê-los na pista. Mas quando eu estava longe das pistas, eu sofri bullying e apanhei, e a única maneira de parar isso era aprendendo a me defender, e por isso optei pelo karatê. Os efeitos psicológicos negativos disso não podem ser mensurados.”

Hamilton agradeceu ao pai, filho de imigrantes caribenhos, por ter sido uma figura negra forte em sua vida e por sempre tê-lo apoiado, e disse acreditar que tudo o que está acontecendo em 2020 vai mudar a vida das pessoas. “Estou começando a acreditar que este ano será o mais importante de nossas vidas, quando poderemos finalmente começar a mudar a opressão sistemática e social das minorias. Só queremos viver, ter as mesmas chances na educação, na vida e não ter medo de andar na rua, de ir para a escola, entrar numa loja, seja o que for. Merecemos isso tanto quanto qualquer um. Igualdade é fundamental para nosso futuro, não podemos parar de lutar e eu nunca vou desistir!”

Hamilton tem engajado-se também em promover a diversidade dentro de seu próprio esporte. Ele acredita que a federação tenha que adotar medidas para frear os custos das categorias de base e, assim, impedir que o esporte continue sendo tão elitista, tendência que vem se acelerando nos últimos anos juntamente com os altos custos do kartismo.