‘Brown Skin Girl’, de diva pop, retrata problema da discriminação enaltecendo diferentes belezas afro.

“Muito do que eu aprendi sobre cores foi porque tenho uma filha mestiça. Como ela tem a pele mais clara e o cabelo mais liso do que o meu, sua vida —nesta sociedade racista e colorista— é infinitamente mais fácil”, conta a escritora Alice Walker em seu livro “Search of Our Mothers’ Gardens: Womanist Prose”.

Foi nesta obra, publicada em 1982, que a autora cunhou o termo “colorism”, ou colorismo, em português, para designar um tipo de discriminação racial.

Quanto mais próximo do branco for o tom da pele e mais distante do negroide for o fenótipo, a tendência é de maior aceitação social. É o que defende Walker, autora do sucesso “A Cor Púrpura”, vencedor do prêmio Pulitzer de melhor ficção, também na década de 1980.

“Brown Skin Girl”, que estreiou em meio a um boom de protestos do movimento Black Lives Matter, é um prato suculento para militantes que propõem o combate ao colorismo, seja pela letra, de enaltecimento à raça negra, ou pelas participações de Kelly Rowland, Naomi Campbell, Lupita Nyong’o, WizKid e SAINt JHN, que são artistas retintos.

No ano passado, o pai de Beyoncé, Mathew Knowles, usou a própria filha para exemplificar a dinâmica do colorismo no setor musical e afirmou que nos últimos 15 anos as cantoras negras retintas dos Estados Unidos tiveram um reconhecimento notoriamente menor em relação às de pele clara, como Beyoncé, Alicia Keys, Rihanna, Nicki Minaj e Mariah Carey.

“Eu acho que [ter a pele mais escura] teria afetado o sucesso [de Beyoncé]”, disse ele em entrevista à rádio SiriusXM Urban View.

Mas o assunto é extenso e já impulsionou inúmeras polêmicas. No mês passado, a atriz americana Zoe Saldana pediu desculpas, numa live no Instagram, por ter interpretado a cantora Nina Simone no filme “Nina”, de Cynthia Mort.

“Na época, eu achei que tinha permissão para a interpretar, porque sou uma mulher negra. E sou mesmo. Mas estamos falando de Nina [Simone], e ela teve uma jornada que deveria ser honrada de forma específica”, disse Saldana, depois de receber muitas críticas pelo trabalho, no qual usou tinta para escurecer o tom de pele e prótese para alargar o nariz. “Ela merecia mais, e eu sinto muito, porque amo sua obra.”

Segundo a cineasta Sabrina Fidalgo, casos como o de “Nina” são lamentáveis. “Não é culpa desses atores, mas é uma falta de sensibilidade e estudo desses diretores que escolhem artistas que não correspondem ao fenótipo de quem será retratado”, critica ela, lembrando o caso polêmico do musical “Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro”, ocorrido em 2018, quando Fabiana Cozza renunciou ao papel de protagonista depois de receber uma onda de críticas.

“Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e, numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar ‘branca’ aos olhos de tantos irmãos”, anunciou Cozza, na época.