Édouard Mendy, do Chelsea, e Alfred Gomis, do Rennes, se enfrentaram nesta terça (24)

Superficialmente, as vitórias do Chelsea sobre o Rennes na Champions League nas últimas semanas foram só mais um daqueles exercícios dispensáveis que preenchem a agenda da fase de grupos do torneio.

O franco favorito Chelsea –um time com muito mais poder de fogo financeiro, um elenco mais amplo e ambições maiores– venceu com facilidade.

Para quem não tinha interesse pelo resultado, haverá pouco motivo para recordar as partidas. E no entanto, esses jogos foram uma raridade não só na Champions League, como na elite do futebol europeu em geral.

Poucos esportes oferecem o campo de jogo nivelado que quase todos acreditam propiciar. Os quarterbacks negros foram raridade na NFL, no passado, assim como jogadores negros nos grandes torneios de tênis e golfe.
O futebol, como tantos outros esportes, ainda luta por ampliar a representação negra em postos de liderança. Há poucos treinadores negros, e ainda menos executivos.

E com certeza existem indicações claras, ainda que não estatísticas, de que o esporte —pelo menos na Europa, se não nos Estados Unidos ou na África— abriga um ceticismo pronunciado com relação a goleiros negros, que vem persistindo apesar da falta de análise, falta de oportunidade e mesmo falta de reconhecimento.

André Onana, goleiro do Ajax, conta uma história sobre a ocasião em que um clube italiano o informou de que sua torcida simplesmente não aceitaria a contratação de um goleiro negro. E há outra história sobre um antigo treinador da Premier League que, ao se ver diante de dois novos potenciais contratados para seu time, descartou o jogador que não era branco e disse que nem precisava vê-lo jogar.

Pela maior parte de sua carreira na Inglaterra, o ex-goleiro Shaka Hislop estava ciente do estereótipo silencioso que o acompanhava, e ainda se recorda de ocasiões em que ele foi expressado em voz alta.

Como no dia em que ele e seus colegas da seleção de Trinidad e Tobago estavam esperando um voo no aeroporto de Nova York e um funcionário da imigração –sem saber quem era ele– lhe explicou extensamente por que os negros não jogam bem no gol.

A profundidade do problema é demonstrada pelos números. Das cinco grandes ligas europeias, a Ligue 1, de 20 clubes, na França, representa uma clara exceção. Lá, nove goleiros negros jogaram no ano passado, e oito já estiveram em campo nesta temporada. Em outros países, os números são péssimos.

Antes da data Fifa da semana passada, 77 goleiros jogaram por pelo menos um minuto na Bundesliga, Série A e La Liga. Nenhum deles era negro. No ano passado, a presença de goleiros negros foi igualmente rara: apenas 2 dos 92 homens que jogaram no gol nos campeonatos italiano e espanhol eram negros; na Alemanha, só havia 2 goleiros negros entre 36.

Na Inglaterra, a situação é igualmente chocante. Apena três jogadores negros participaram como goleiros de partidas da Premier League neste ano: Alphonse Areola, do Fulham, Robert Sánchez, do Brighton, e Mendy, do Chelsea.

Há outros cinco goleiros negros inscritos na Premier League, incluindo Zack Steffen, da seleção dos Estados Unidos, pelo Manchester City, mas eles ainda não entraram em campo em jogos da liga.

O contraste entre a quantidade minúscula de goleiros negros e a quantidade de jogadores negros de linha, nas ligas de elite da Europa, é tamanha que fica difícil descartá-la como coincidência ou como ilusão associada a um retrato momentâneo.

Os goleiros negros sofrem de representação cronicamente baixa no futebol europeu. Goleiros africanos são ainda mais incomuns.

A cada ano, os países mais poderosos do futebol no oeste da África exportam dezenas de jogadores para as grandes ligas europeias. Mas os goleiros titulares das seleções da Nigéria, Costa do Marfim e Gana continuam a jogar na África.

E embora nenhum outro país africano tenha produzido tantos goleiros de elite quanto Camarões, que enviou Jacques Songo’o e Thomas N’Kono para jogar na Espanha e Joseph-Antoine Bell para uma longa careira na França, o atual dono da camisa 1 na seleção camaronesa, Fabrice Ondoa, ainda não trocou a primeira divisão belga por uma das principais ligas da Europa.

O primo de Ondoa –e seu colega de seleção—, Onana, pelo menos joga a Champions League, pelo Ajax. Mas só o Senegal, com dois goleiros –Mendy e Gomis– jogando na maior competição interclubes do planeta, pode afirmar com confiança que tem dois arqueiros no nível mais elevado do esporte.

Mendy não tem uma explicação imediata para as causas disso. Talvez, ele disse ao ser apresentado pelo Chelsea, a situação tenha a ver com o mal definido “perfil” que os treinadores buscam. Mas hás quem proponha explicações diferentes, e com raízes mais profundas.

“Costumava haver um estigma vinculado à ideia de um quarterback negro na NFL”, disse Tim Howard, antigo goleiro do Everton e da seleção americana. “Havia uma ideia de que eles não eram tão cerebrais.”

Howard vê um eco dessa situação na escassez de goleiros negros. O futebol –pelo menos em campo– há muito se considera uma meritocracia que deixou para trás os velhos e destrutivos estereótipos.

Mas basta pesquisar um pouco e a influência perniciosa deles permanece. A probabilidade estatística de que haja jogadores negros como meio-campistas ou meias de ligação é mais baixa do que a de que joguem em outras posições, e eles continuam a ser mais elogiados pelos comentaristas por características como velocidade e força do que por qualidades mais intangíveis como “inteligência” e “liderança”. E raramente, ao que parece, eles recebem a oportunidade de jogar no gol, na elite do futebol europeu.

Mendy aceita que cabe a ele ajudar a derrubar esse estereótipo. Tudo que ele pode fazer, diz o jogador, é “demonstrar que sou capaz de jogar nesse nível e talvez mudar a mentalidade das pessoas sobre essas coisas”. Para aqueles que tiveram de suportar os mesmos preconceitos, porém, e passaram suas carreiras buscando serem agentes de mudança, isso é parte do problema.

Hislop, agora comentarista na ESPN, exemplifica citando o caso de Jordan Pickford, o atual goleiro titular do Everton e da seleção inglesa. Pickford vem sofrendo escrutínio nos últimos anos por sua tendência a decisões irresponsáveis. “Todo mundo fica sob a luneta, de vez em quando”, disse Hislop.

A diferença é que, quando Pickford comete um erro, “ninguém usa seu desempenho para argumentar que jogadores brancos não são bons goleiros”, disse Hislop. Se Pickford erra, só sua reputação pessoal é prejudicada.

Os goleiros negros, argumenta Hislop, não têm o mesmo privilégio. Coube-lhe, durante sua carreira, ele diz, ver cada um de seus erros apontado como prova conclusiva de que “os goleiros negros erram demais”.

E isso não se aplica só a ele. Hislop acredita que quando David James, que foi goleiro do Liverpool, Manchester City e da seleção inglesa, cometia erros, suas falhas eram apontadas como prova da validade do estereótipo.

Carlos Kameni, antigo goleiro da seleção de Camarões que jogou a maior parte de sua carreira pelo Espanyol, da Espanha, disse não acreditar que a escassez de goleiros negros seja “uma forma de racismo”.

Se o goleiro for bom, disse Kameni, um dos grandes clubes europeus o contratará, e ele usa a chegada de Mendy ao Chelsea como prova. Para Kameni, o problema é muito mais simples. “Não existem bons goleiros negros em número suficiente”, ele disse, via WhatsApp.

Mas essas duas coisas não deixam de estar ligadas. O problema, disse Hislop, é não só que os treinadores parecem menos inclinados a dar uma oportunidade aos goleiros negros para que exibam seus talentos, mas também que os goleiros negros tenham menos modelos para provar que eles podem ter sucesso. “Eles não têm um exemplo a seguir”, disse Hislop.

Preconceitos, silenciosos ou não, podem ser expostos. Círculos viciosos podem ser detidos. Mendy, Gomis, Onana e os demais goleiros negros podem ajudar nesse processo. A vergonha, claro, é que precisem fazê-lo.