Uma participante da 7ª temporada do MasterChef ganhou torcida cativa, ainda que não tenha sido a vencedora do programa: Margarida Arcebispo, 71 anos, nascida em Manhumirim, cidade de Minas Gerais, e moradora de Guaianases, zona leste de São Paulo.

Dona Margarida, que tem três filhos e sete netos, entrou na competição com um objetivo: ganhar o prêmio de R$ 1 mil em compras no supermercado por um ano. “Seria um ano de felicidade, já pensou? Ganho um salário de aposentada e às vezes a gente quer comprar coisas melhorzinhas para os netos”, justifica. “Não é que eu não posso ir ao mercado, mas às vezes eu deixo de comprar outras coisas, como um celular, já que o meu está por um fio.”

Se a premiação de R$ 5 mil viesse, Margarida usaria na reforma da casa — construída em um terreno onde também moram dois filhos, Priscila e Alexandre. Já se ela tivesse levado o prêmio do forno elétrico, disse para Universa, destinaria o eletrodoméstico para a comunidade católica da qual faz parte.

O ano de supermercado não veio, nem as outras contrapartidas. Assim, foi criada uma vaquinha virtual para arrecadar o dinheiro para abastecer a cozinha dela por doze meses. Nesta quinta-feira (8), a ação já tinha arrecadado quase quatro vezes mais (mais de R$ 47 mil) do que a meta. O dinheiro “extra” será destinado para terminar os reparos na casa.

A vaquinha foi publicada até pela jurada Paola Carosella no Instagram. Quem contribuiu recebe em troca um e-book escrito com algumas receitas e dicas de chef de Margarida.

Trabalho na infância e a tristeza como degrau da alegria

No programa, Margarida contou um pouco sobre sua história de vida aos jurados e ao público. Aos 11 anos, deixou sua cidade natal e se mudou para São Paulo, onde começou a atuar como babá e trabalhadora doméstica. A mãe havia morrido assim que a família chegou à Capital paulista, e ela precisava ajudar o irmão que “terminou de criá-la” a sustentar a casa.

Na primeira experiência de trabalho, cuidava do filho de 5 anos da patroa. Uma das filhas de Margarida, Adriana Arcebispo, que é criadora de conteúdo do Instagram @familiaquilombo, conta que ali ela sofreu pelo menos um episódio de racismo e humilhação. “O menino falava que não gostava de preta, a chamava de macaca. E minha mãe também chorava pela perda da minha avó e a patroa dizia que não adiantava ela chorar, que não ia trazê-la de volta.”

Margarida encontrou emprego na casa de outra família, onde ficou por 20 anos. “Trabalhou duro por anos a fio sem registro na carteira”, pontua Adriana em um post do Instagram.

“A patroa tinha cinco filhos, dois mais novos que eu, uma com a minha idade e dois mais velhos. Ela foi confiando mais em mim e, quando eu tinha 12 anos, fazia a comida se ela saísse para ir ao cabeleireiro, ao médico. Ela ia despreocupada e nem falava para eu fazer o almoço, mas eu sabia que as crianças iam chegar da escola e fazia”, relembra dona Margarida.

O casamento e o nascimento dos filhos fizeram com que Margarida saísse da rotina de trabalhadora doméstica. Passou, então, a cozinhar para a família. “Ela é a Margarida que tem várias receitas com berinjela, por exemplo, crua, assada, lasanha. E nunca viveu com opulência, tinha que tirar sabor da escassez. Íamos à feira sempre no final e voltávamos para casa com sacola pesada, com tomates amassados…E ela fazia um molho maravilhoso”, comenta Adriana.

Margarida ainda voltou a faxinar, mas, aos 65 anos, conseguiu se aposentar. Nesse meio tempo, se separou do marido. A sogra, hoje com 98 anos, a ajudou a cuidar dos pequenos.

Universa pergunta se há alguma parte de sua trajetória de vida, como o fato de trabalhar desde a infância, que a MasterChef não goste de contar. Na resposta, ela deixa ainda mais evidente a forma como vê o mundo e a própria experiência. “Não tem nenhum momento que eu me sinta triste em contar sobre. O que pode parecer triste contribui para a vida de alguém que esteja passando o que eu passei. Ainda hoje há crianças que trabalham. Mas eu acredito que as coisas tristes são degraus para a alegria. Eu sempre preferi ver o lado melhor da maçã, a parte docinha, não gosto da parte ruim.”

“O sorriso do negro é bonito”

Nas redes sociais, a torcida de Margarida rasgou elogios à personalidade dela. Para os tuiteiros, ela é “tudo de bom no mundo”, “muito fofa”, “maravilhosa”. “Emocionado só com o sorriso dela”, escreveu um dos telespectadores.

Acontece que a presença de pessoas negras na TV não é proporcional ao número daqueles que se declaram pretos e pardos no Brasil (56% do total, segundo IBGE). Quando uma mulher negra como dona Margarida chega a um game culinário na TV é, de fato, um exemplo de representação – que ela mesma não acreditava que veria se concretizar.

“Sou da época em que o negro não aparecia em propaganda, por exemplo. Uma vez, fizeram uma pesquisa comigo na rua e perguntaram o que eu achava que faria a venda de tal creme dental crescer”, relembra. “Eu disse que fazer propaganda com negros, porque negro tem dentes e sorriso bonito. A entrevistadora achou engraçada minha resposta, e nem a anotou. Por isso, eu pensei que não iria alcançar essa fase [de ver mais pessoas negras na TV], e muito menos que poderia colaborar com isso.”

“As coisas estão mudando, a gente antes não era ouvido. O grito do negro sempre esteve mais preso.”

Talento da mulher preta

Estão mudando, sim. Mas, para Adriana Arcebispo, ainda temos muito chão para caminhar incentivados pela mais recente onda antirracista – que, refletiu, inclusive nas redes sociais que ela mantém com a família.

“O nosso @familiaquilombo aumentou muito o número de seguidores, por exemplo, porque as pessoas descobriram, entre aspas, que o racismo é estrutural e estruturante e começaram a olhar quem é negro e está criando conteúdo”, relata. “Minha mãe, por sua vez, ganhou repercussão porque reúne os fatos de ser mulher, preta e com pouco estudo. O público comenta que se lembra da avó, da mãe. E ainda tem o mérito do que ela é, claro: uma mulher de riso fácil, criativa, que tem graça.”

Conectar a experiência real das pessoas com o que elas reproduzem ou divulgam no Instagram, na opinião de Adriana, faz parte de um aprendizado. “A gente quer ser valorizado no Instagram, mas que também seja restituído, como a vaquinha virtual que estamos fazendo. Se uma pessoa negra ‘alegrou seu dia’, a restitua, seguindo nas redes, divulgando, mas dando grana também”, pontua.

“E que a branquitude também olhe para sua própria história e veja que sua riqueza, como a da mulher que era patroa dela, pode ter sido construída sobre histórias como a da minha mãe. Aliás, eu tenho muita curiosidade de saber como e se a família que explorou a mão de obra dela a vida toda assistiu ao programa, nesse momento que a gente está discutindo a branquitude.”