A crise da pandemia de Covid-19 descortinou os grandes desafios relativos à concentração de riqueza e suas consequências nas desigualdades sociais, territoriais, tecnológicas e de gênero e raça ao redor do mundo. A busca por um patamar social de bem-estar com espaço seguro e justo para a humanidade, assim como as questões das mudanças climáticas, coloca em xeque o desenvolvimento econômico no qual as pessoas e o cuidado com o planeta não sejam prioridade.

Amartya Sen, Nobel de Economia em 1998, enfatiza, no conceito de desenvolvimento, a ampliação das aptidões das pessoas para que, saudáveis, empoderadas e criativas, escolham seus projetos de vida. Diante de tantos desafios, a economia do século 21 precisa atuar sobre as concepções distributivas e de regeneração do planeta.

No Brasil, a crise sanitária já deixou milhões de famílias sem nenhum sustento, e as previsões de queda do PIB tornarão esse quadro ainda mais grave. Enfrentar essa situação exigirá um olhar sistêmico para políticas sociais, econômicas e ambientais e a articulação da sociedade civil, do setor privado e dos governos.

A renda básica emergencial parece apontar para uma real diminuição da pobreza nos meses de abril e maio, o que nos leva a considerá-la como um instrumento importante para o alcance de um patamar mínimo de dignidade, assim como para a ativação das atividades econômicas. Vale destacar que a pobreza tem cor e gênero: são as mulheres chefes de família e os negros e negras que mais sofrem nesse cenário.

Ainda no âmbito da economia, o pós-pandemia deverá acentuar demandas já existentes anteriormente. As empresas devem contribuir para o bem-estar da sociedade, indo além do seu propósito de apenas gerar ganhos aos acionistas. A construção de um mercado confiável exigirá também políticas e incentivos para micro, pequenos e médios empreendedores e investidores, de modo que eles tenham espaço para diversidade, criatividade e atividades econômicas nos diferentes territórios. Nesse sentido, a articulação entre o investimento social privado, as organizações da sociedade civil com o setor privado e as políticas públicas será também fundamental.

Nada disso, porém, pode ser construído sem a escuta e o envolvimento das periferias, que protagonizam diariamente a criação de soluções para a precariedade dos territórios. No enfrentamento da Covid-19 não foi diferente, e são inúmeros os mecanismos de ajuda humanitária às populações e as soluções de ativação para empreendimentos e empreendedores. Projetos como a Digital Favela, liderada por Celso Atayde, da Favela Holding, e pela agência Peppery, plataforma com marcas e influenciadores das periferias que mostra o potencial de seus produtos; o Comércio da Quebrada, com o portal Mondial Shop de e-commerce dedicado aos pequenos comerciantes da Brasilândia; o Fundo Volta por Cima (aliança do Banco Pérola com a Anip – Articuladora de Negócios de Impacto da Periferia, composta por A Banca, Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV-Eaesp e Artemisia), que visa conceder empréstimos a juro zero a empreendedores de impacto; além do Fundo Éditodos, grupo de organizações que reúne vários atores do ecossistema de empreendedorismo negro no Brasil, entre outros.

Estamos em ano de eleições municipais, com o país mergulhado em uma intersecção de crises sem precedentes. Nesse contexto, os valores e as vocações das periferias são fundamentais na construção das políticas públicas. O território importa, por isso precisamos das lideranças periféricas ocupando esses espaços para assim termos realmente um formato inovador para alcançar impactos que deem sentido à qualidade na vida das pessoas. É o momento daqueles que têm uma agenda progressista de enfrentamento das desigualdades sociais, raciais, tecnológicas e de gênero.