Entregador de 18 anos foi agredido por dois policiais militares. Em um novo depoimento nesta terça (11), Matheus Fernandes levou boné que, segundo os PMs, faz referência a um dos chefes do tráfico de drogas do Morro do Dendê.

O delegado da 37ª DP (Ilha do Governador), Marcus Henrique Alves, disse estar convencido de que a agressão contra o entregador Matheus Fernandes, de 18 anos, segue sendo investigada como um crime de racismo. O jovem denunciou que foi agredido e ameaçado no Ilha Plaza Shopping, na Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio.

“A polícia não muda a sua convicção. O meu entendimento é que ele foi abordado porque ele é negro, então estamos investigando o crime de racismo e de abuso de autoridade”, destacou o delegado.

Matheus Fernandes, de 18 anos, prestou um novo depoimento na tarde desta terça-feira (11) e foi acompanhado pela mãe, Alice Fernandes, e pelo tio, Jaime Fernandes, que é advogado. O entregador levou o boné que usava durante a abordagem dos policiais militares no shopping.

Em um depoimento prestado nesta segunda-feira (10), os PMs Gabriel Izau e Diego da Silva afirmaram que o jovem levantou suspeitas porque o boné fazia referência a um dos chefes do tráfico de drogas do Morro do Dendê, na Ilha do Governador.

O entregador afirmou que achou o boné no chão e que já tinha usado em outras vezes, inclusive no mesmo shopping. Matheus disse que não sabia o significado das palavras e que os policiais não chegaram a falar sobre o boné durante a abordagem.

“Eles mesmos não reclamaram no momento que fizeram aquilo comigo”, ressaltou o jovem.

Para o depoimento, o entregador também levou a carteira que estava na cintura. Segundo os policiais, o volume chamou atenção.

“Ele tinha dito que o volume da minha carteira na cintura tinha chamado a atenção, sendo que a carteira tava na minha mão e dá pra ver que ela não tem volume nenhum”, afirmou Matheus.

O advogado destacou a ocorrência de vários crimes, como racismo, abuso de autoridade, constrangimento ilegal e roubo, porque o cartão de crédito do entregador sumiu.

A mãe do jovem afirmou que a família vive um pesadelo desde a agressão.

“Querem denegrir a imagem do meu filho. Meu filho não fez nada de errado. Ele se identificou, coisa que eles não fizeram. As imagens mostram. Ele já sai da loja mostrando identidade, relógio, tudo. Pra que fazer isso com a imagem do meu filho? As pessoas que passam por este tipo de coisa não falam ou porque é constrangedor ou porque já estão acostumadas”, disse a mãe de Matheus.

A polícia também ouviu nesta terça-feira (11) o depoimento do gerente de segurança do shopping. O delegado buscava esclarecer a relação do estabelecimento e a empresa Prisma, na qual os PMs eram contratados. A razão social é Moura Corbage Serviços Limitada e tem entre os sócios o major da PM Marcelo de Castro Corbage.

O gerente afirmou que a empresa não presta serviços de segurança para o shopping, mas sim uma assessoria na área de inteligência.

Outra denúncia

Nesta segunda-feira (10), um produtor de evento denunciou que também foi vítima de um ataque racista de um segurança do Ilha Plaza Shopping. Thiago Silva contou que o constrangimento de ser abordado ocorreu em outubro do ano passado.

Ele afirma que decidiu não denunciar na época por medo. Ele quebrou o silêncio após ver o caso se repetir com o entregador Matheus.

De acordo com o produtor, o segurança afirmou que ele estava em atitude suspeita, mas ele diz que apenas mexia no celular. Ele contou que o segurança foi o mesmo que agrediu Matheus.

“Eu simplesmente estava mexendo no meu telefone, esperando a minha patroa. Isso não é uma atitude suspeita”, disse Thiago.

O que dizem os citados

A PM disse que não compactua e pune, com rigor, qualquer desvio de conduta ou abuso de autoridade por parte de membros da corporação. A Polícia Militar informou que abriu uma apuração interna e que a corregedoria está acompanhando a condução do inquérito pela Polícia Civil.

O Ilha Plaza Shopping reforçou que repudia qualquer ato de discriminação e de violência e voltou a afirmar que cancelou o contrato com a empresa de consultoria em segurança. O shopping disse que está colaborando com as investigações.

RJ2 não teve retorno da empresa Moura Corbage Serviços Limitada.