Democrata enfrentou críticas pela atuação diante da violência racial e promoveu melhorias na área de habitação

David Dinkins, filho de um barbeiro e o primeiro prefeito negro de Nova York, eleito sob as asas da harmonia racial, mas rejeitado pelos eleitores após um mandato, muito criticado pela atuação diante da violência racial no Brooklyn, morreu na segunda (23), em sua casa em Manhattan. Tinha 93 anos.

A morte, confirmada pelo prefeito Bill de Blasio, ocorre menos de dois meses após a da mulher de Dinkins, Joyce. Cauteloso, ponderado, um democrata do Harlem que chegou à Prefeitura após ocupar cargos eletivos e de confiança relativamente menores, Dinkins não tinha a vivacidade de Edward Koch, que o precedeu, ou de Rudolph Giuliani, que o sucedeu —que, com Fiorello La Guardia nos anos 1930 e 40, foram possivelmente os mais populares e bem sucedidos prefeitos do século 20.

De fato, muitos historiadores e especialistas políticos dizem que como 106º prefeito de Nova York, de 1990 a 1993, Dinkins levou desvantagem em comparação com os gigantes que o ladeiam.

Herdou enormes déficits orçamentários que cresceram ainda mais. Enfrentou alguns dos piores problemas de criminalidade da história da cidade e lidou com eles expandindo a polícia a níveis sem precedentes. Dinkins manteve as bibliotecas da cidade abertas, revitalizou a Times Square e reabilitou os conjuntos habitacionais no Bronx, Brooklyn e Harlem.

Mas a harmonia racial, que era sua maior esperança, continuou sendo um sonho distante, e seus lapsos na reação à crise em Crown Heights, no Brooklyn, tornaram-se um legado incontornável.

Com lugar garantido na história como o primeiro prefeito negro da cidade, Dinkins tornou-se um estadista tranquilo nos últimos anos, lecionando na Universidade Columbia, apresentando um programa de rádio na WLIB e frequentando recepções, jantares e cerimônias.

Ele foi consultado ocasionalmente pelo prefeito Michael Bloomberg e outros que ocuparam ou almejavam o cargo, mas foi mais discreto que Koch ou Giuliani, que estavam entre seus mais severos críticos.

Em um livro de 2013, Dinkins admitiu erros durante seu mandato, incluindo o fracasso em conter os tumultos raciais em Crown Heights em 1991, pelos quais culpou amplamente seu chefe de polícia, e sua recusa a romper um longo boicote negro a um mercado de propriedade coreana no Brooklyn em 1990.

Ele atribuiu sua vitória apertada na eleição em 1989 e sua derrota quatro anos depois, não a erros, mas ao fato de ser negro. “Acho que foi apenas racismo, pura e simplesmente”, disse Dinkins em “A Mayor’s Life: Governing New York’s Gorgeous Mosaic” [a vida de um prefeito: governando o maravilhoso mosaico de Nova York], escrito com Peter Knobler.

Ele gostava de chamar os nova-iorquinos de “mosaico maravilhoso”, e em uma cidade onde os ideais do cadinho cultural muitas vezes se chocavam com a realidade dos conflitos raciais, étnicos e religiosos, ele se via como um conciliador que, com paciência e dignidade, poderia dominar as paixões dos bairros multiculturais.

Isso parecia plausível no violento ano eleitoral de 1989. Uma mulher branca correndo no Central Park tinha sido violentada e selvagemente espancada, e um grupo de jovens hispânicos e negros foi preso.

Um adolescente negro tinha sido cercado por brancos e morto a tiros no Brooklyn. A cidade, cheia de drogas e de pessoas sem moradia, arrastava-se de crise em crise. A própria campanha eleitoral parecia à beira de um cisma racial.

Koch, o prefeito democrata considerado por muitos moradores negros insensível a seus interesses, tentava um inédito quarto mandato após anos de política divisiva e escândalos de corrupção que brotavam ao seu redor. Giuliani, um ex-procurador federal em Manhattan e o candidato da fusão republicanos-liberais, transmitia a combatividade de um rígido promotor de justiça.

Dinkins era visto como uma alternativa sem inspiração. Seu estilo era ponderado e roteirizado; até os seguidores o chamavam de desanimado. Ele tinha 62 anos e era presidente do bairro de Manhattan, cargo que conquistou na terceira tentativa.

Durante dez anos havia sido escrivão municipal, cargo por nomeação que mantinha licenças de casamento e registros do município. Muito antes ele havia sido legislador estadual por um mandato.

Havia questões sobre suas finanças pessoais. Dinkins tinha deixado de apresentar declaração de rendimentos durante quatro anos. Sua base política não ia muito além do Harlem, onde ele foi uma figura popular durante 25 anos. E tinha ligações estreitas com o reverendo Jesse Jackson, que irritou os judeus ao chamar Nova York de “cidade de judeuzinhos”.

​Juntando uma frágil coalizão de sindicatos, liberais e minorias, Dinkins derrotou firmemente Koch nas eleições primárias e, em uma cidade dominada por democratas, venceu Giuliani em novembro com uma das menores margens de votos do século.

A eleição significou uma mudança histórica em uma cidade onde os brancos não hispânicos, embora ainda predominassem economicamente, não eram mais a maioria. E Nova York se tornou a última das dez maiores cidades dos Estados Unidos a eleger um prefeito negro.

Em 1º de janeiro de 1990, Dinkins tomou posse diante de uma multidão jubilosa de 12 mil pessoas no City Hall Park. “Apresento-me a vocês hoje como o líder eleito da maior cidade de um grande país, ao qual meus ancestrais foram trazidos acorrentados e chicoteados no porão de um navio de escravos”, disse. “Não terminamos a viagem na direção da liberdade e da justiça, mas percorremos um longo caminho.”

Mas a cidade estava em dificuldades. A ascensão financeira e imobiliária que havia alimentado seu crescimento nos anos 1980 tinha terminado. A mais profunda recessão local desde a Grande Depressão tinha cortado empregos e as receitas fiscais, deixando um buraco orçamentário de US$ 1,8 bilhão.

Os sem-teto ocupavam as ruas. Aids, heroína e crack eram epidêmicos. Os assassinatos superavam 1.900 por ano. Para o resto dos Estados Unidos, a cidade de arranha-céus e grandes esperanças parecia um fosso de decadência urbana.

Com a ajuda federal para as cidades significativamente reduzida, Dinkins primeiro hesitou com um orçamento de US$ 28 bilhões, depois cortou as verbas de saúde, educação, habitação, serviços sociais e programas para crianças, idosos e pobres.

Ele também aumentou impostos em US$ 800 milhões, o maior aumento na história da cidade. (Ele ajudou a levar a convenção democrata de 1992 a Nova York, tentando reabastecer os cofres da cidade, mas não foi uma solução prática.)

Dinkins escolheu o grupo mais diversificado da história para chefiar os órgãos públicos. Duas mulheres se tornaram vice-prefeitas, outras foram nomeadas comissárias de investigações, finanças, parques, recursos humanos e habitação.

Ele nomeou o primeiro chefe do corpo de bombeiros porto-riquenho e um psiquiatra negro, declaradamente gay, comissário de saúde. Para comissário de polícia escolheu Lee Brown, um negro veterano das polícias de Atlanta e Houston.

Era um gabinete decidido de instigadores, provocadores e burocratas, e havia brigas e rivalidades entre órgãos que o prefeito parecia incapaz de controlar. As vices discutiam abertamente, e Dinkins o permitia.

Norman Steisel, o primeiro vice-prefeito, estava nominalmente no comando, mas grandes decisões tinham de ser liberadas pelo vice-prefeito Bill Lynch Jr., o principal assessor político. O resultado eram intrigas.

No verão de 1990, Dinkins estava na defensiva, reagindo a uma série de crimes assustadores, incluindo crianças mortas em tiroteios aleatórios ligados a gangues e drogas. O prefeito se viu pressionado a reagir, mas disse que esperava o relatório de Brown sobre a reformulação de seu departamento.

Então um jovem turista de Utah foi morto a facadas enquanto tentava proteger sua mãe de um ladrão no metrô. Houve indignação. Editoriais chamavam o prefeito de ineficaz e sugeriam que a cidade sofria uma crise moral. Finalmente, em outubro, um Dinkins abalado apresentou uma série de propostas anticrime, incluindo uma expansão recorde da polícia e um plano de devolver policiais à repressão em bairros.

“Não travaremos a guerra aos poucos”, disse ele, convocando milhares de novos policiais para elevar a força do departamento a 42.400.

A controvérsia também girava em torno de seu fracasso para resolver o boicote negro a um pequeno mercado coreano no Brooklyn. Começou quando uma mulher haitiano-americana disse que um vendedor da loja a insultou e a atacou. O proprietário disse que a mulher não tinha pago suas compras.

Uma multidão negra a defendeu, e o confronto se transformou num boicote que durou meses, com protestos, comícios e ameaças. A diplomacia de nada serviu. O contratempo finalmente cedeu, e o mercado foi vendido. Mas o prefeito, que tinha ido à televisão pedir tolerância racial, saiu-se mal —muito relutante em ofender qualquer dos lados, alienou os dois.

Os acontecimentos que passaram a simbolizar os fracassos e finalmente a queda do governo Dinkins se desenrolaram em agosto de 1991 em Crown Heights, bairro de americanos negros de origem caribenha e judeus hassídicos que há muito estavam em choque.

O problema começou quando um carro dirigido por um judeu, próximo do grande rabino Menachem M. Schneerson, atropelou e matou Gavin Cato, um menino negro de 7 anos.

Horas depois, em aparente retaliação, um grupo de adolescentes negros cercou Yankel Rosenbaum, um estudioso hassídico de 29 anos da Austrália, e o esfaqueou até a morte. Tumultos e brigas ocorreram durante quatro dias. Lojas foram saqueadas e dezenas de moradores e policiais se feriram.

A comoção terminou somente depois que Dinkins admitiu os fracassos da polícia e ordenou táticas mais efetivas para conter a violência. Não houve evidências de que Dinkins conteve a polícia na proteção dos judeus contra os moradores negros, como alguns judeus afirmaram.

Na verdade, ele visitou Rosenbaum em seu leito de morte e confrontou os membros revoltados de um grupo negro que atirou garrafas contra ele. Mas Dinkins foi amplamente criticado por não agir com rapidez suficiente. Ele mesmo admitiu que a polícia falhou em suprimir a violência durante três dias. Os judeus denunciaram o prefeito durante meses, e isso não foi o fim da questão.

Em 1992, um adolescente negro acusado de matar Rosenbaum foi absolvido por um júri, provocando mais protestos. Dinkins foi duramente criticado por não repudiar o veredicto. Enquanto isso, moradores negros de Crown Heights acusaram o prefeito de tentar agradar os hassídicos. O prefeito foi à televisão responder às críticas e defender sua condução da crise. Ele também foi a Crown Heights pedir harmonia.

Quando Dinkins tentou se reeleger em 1993, porém, um relatório estadual concluiu que ele demorou para avaliar a gravidade da situação, deixou de questionar assertivamente os comandantes policiais e não agiu de forma decisiva até o quarto dia para mudar de tática e pôr fim à violência.

Giuliani, aproveitando a onda de insatisfação dos eleitores, derrotou Dinkins por estreita diferença em novembro, ganhando nos bairros brancos de Brooklyn, Queens e Staten Island e a preferência de democratas alienados por Crown Heights e outros fatos relacionados à questão racial.

Alguns apoiadores de Dinkins disseram que ele sempre sofreu maiores exigências por causa de sua raça. Mas se ele acreditava nisso nunca o disse publicamente.

David Norman Dinkins nasceu em Trenton, estado de Nova York, em 10 de julho de 1927, filho de Sally e William Harvey Dinkins Jr., que tinham se mudado da Virgínia um ano antes. Seus pais se separaram quando ele estava na primeira série (mais tarde se divorciaram), e ele e sua irmã menor, Joyce, mudaram-se para o Harlem com a mãe, que trabalhava como empregada doméstica.

Os filhos logo voltaram a Trenton para viver com o pai e sua nova mulher, Lottie Hartgell. David foi um bom aluno, especialmente em latim, na Escola Secundária Central de Trenton. Depois de se formar, em 1945, ele serviu brevemente no Exército, mas foi transferido para o Corpo de Fuzileiros Navais e passou a maior parte de 13 meses de serviço em Camp Lejeune, na Carolina do Norte.

Dispensado em agosto de 1946, matriculou-se na Universidade Howard, historicamente negra, em Washington, com opção por matemática, e formou-se com louvor em 1950.

Em Howard, ele conheceu Joyce Burrows, estudante de sociologia com quem se casou em 1953 depois da formatura dela. Tiveram dois filhos, David Jr. e Donna. Joyce Dinkins morreu em outubro passado, aos 89 anos. Dinkins deixa os filhos, dois netos e sua irmã, Joyce Belton.