Indiscutível nesta pandemia que em maior ou menor medida, ela nos leva a refletir sobre os mais variados assuntos.

Um dos assuntos que mais me chama a atenção é o esforço que os cientistas, médicos e a imprensa, estão envidando para provar pelo menos que: a) o COVID -19 não é uma gripezinha; b) é necessário ficar o máximo possível em isolamento ou afastamento social; e c) usar máscara.

Esse esforço é seguido pela triste realidade fática de mais de 10.000 (dez mil) mortes apenas no Brasil.

E o que isso tem que ver com Racismo e Cultura Empresarial?

As pessoas seguem padrões de comportamentos.

O melhor cientista, médico, infectologista, do mundo, após apresentar todas as evidências possíveis a uma pessoa que já decidiu que a epidemia não é grave, ouvirá como resposta:”é, entendi. Mas não sei não, acho que não é tudo isso.” Talvez o constrangimento não permita verbalizar, mas o pensamento certamente será este.

Ao tratar do Racismo o padrão é o mesmo.

O melhor cientista social, geneticista, antropólogo, ONU, UNESCO, do mundo, pode apresentar todas as evidências possíveis a uma pessoa que já decidiu que que não há racismo no Brasil, ou que aquela situação específica é “mimimi” e certamente também ouvirá como resposta:”é, entendi. Mas não sei não, acho que não é tudo isso.”

Os seres humanos têm as suas convicções pessoais, as quais somente os próprios indivíduos podem espontaneamente, ou a partir de estímulos externos, alterar.
O convencimento, nada mais é que um estímulo externo, que em um dado momento o individuo assimila e altera a sua convicção, formando um novo quadro de convicções.

Os seres humanos não são criaturas 100% racionais, e que bom que não são. Mas se fossemos, ao menos seria simples, bastaria as informações necessárias e imediatamente tomaríamos as decisões certas.

Comer demais? Bastaria informar sobre as calorias. Se não poupam, bastaria dar-lhes uma calculadora de aposentadoria, e elas começariam a poupar às taxas apropriadas. Digitam enquanto dirigem? É só explicar-lhes o quanto isso é perigoso.

Mas não somos assim. Somos influenciados por informações lembradas, sentimentos gerados de modo automático, estímulos salientes no ambiente e comportamento aprendidos.

Além disso, vivemos o momento, isto é, tendemos a resistir às mudanças, somos sujeitos a distorções de memória e afetados por estados psicológicos, para dizer o mínimo.

O psicólogo americano David Shapiro, citado por Ichak Adizes em Os Ciclos de Vida das Organizações, diz que “Cada pessoa é um indivíduo com suas idiossincrasias peculiares; não obstante, elas seguem certos padrões de comportamento.”

Em geral, para mudar suas convicções, as pessoas precisam passar por diferentes experimentações, o aprendizado, a vivência, a convivência, a tragédia, o luto, a percepção etc.

Veja, no caso do Coronavírus, alguém que hoje está convicto de que usar a máscara ou o isolamento social são desnecessários, certamente mudaria de ideia se uma pessoa próxima ficasse severamente doente.

Não são raros relato de pessoas que dizem ter percebido a profundidade do racismo e do preconceito racial, dos quais os negros sofrem no Brasil, a partir de uma experiência de segregação, principalmente em outro país. Por exemplo, entrar em um ônibus em um país africano onde você é o único branco e ser olhado com a expressão de desprezo, se é que é possível chamar assim este olhar.

Ou, ainda, viver a experiência de ser “o Latino”, nos EUA, por exemplo. Não importa sua cor no Brasil, nos EUA, em regra, você será tratado com um Latino, alguém inferior.

O Racismo, a Covid, são perfeitamente explicáveis por toda uma estrutura racional e lógica, mas não deixam de ser também uma percepção para o ser humano, do qual este atribuirá mais ou menos valor.

Em qualquer um dos casos, a mudança de comportamento não se faz apenas com convencimento.

Há o momento de informar, debater, explicar, tirar dúvidas, envolver e acreditar na capacidade da educação e formação das pessoas.
Há o momento de apresentar regras claras e explicitar quais são os valores defendidos.

E, por fim, há o momento de enrijecimento das regras e aplicação de penalidades bem definidas.

O Ethos é justamente um comportamento que se adota, e que se repete, que se consagra pelo tempo e transforma em costume. Uma prática informada por valores, que influem para que eu adote aquele comportamento, que por fim acabará influenciando toda a Cultura do grupo social, da sociedade ou da empresa.

A imprensa, os médicos, os funcionários do sistema de saúde, campanhas contínuas, não conseguiram convencer parte relevante da população a usar a máscara? A defesa dos valores continuará. Se não houver mudança pelo convencimento e convergência, então vamos pelo bolso. Mudança forçada e necessária de comportamento.

Na esfera pública, não atendidos os apelos, multa. No campo empresarial, não observados os apelos, reunião de feedback, penalidades disciplinares, demissão para o colaborador, e, para a empresa, danos à imagem, perda de confiança dos consumidores, contestação em redes sociais, insatisfação, perda de valor no mercado etc.

Mas, por fim, convenhamos, prejuízos totalmente desnecessários e evitáveis.
Que todos sigamos vivos e com saúde.

Referências Bibliográficas
Brandão, Helena H. Nagamine Brandão. Introdução à análise do discurso. Campinas. Ed. Unicamp. 2002.
Dallari, Dalmo de Abreu. Ética. Ebook. 2003.
Geertz, Clifford. A interpretação das culturas. l.ed. Rio de Janeiro: LTC, 2008.
Guia de Economia Comportamental e Experimental / Flávia Ávila, Ana Maria Bianchi, organizadores, tradução Laura Teixeira Motta – 1ª ed. – São Paulo: EconomiaComportamental.org, 2015.

Raphael Vicente. Sócio do Escritório Vicente e Vicente Sociedade de Advogados. Especialista em Direito do Trabalho. Pesquisador, Mestre e Doutorando em Ciências Sociais – PUC/SP