Universidade de Brasília é pioneira na ação afirmativa; aprovação ocorreu em 2003. Número de alunos pretos ou pardos passou de 10% para 48,7%.

Uma pesquisa social feita pela Universidade de Brasília aponta que, 17 anos após a aprovação das cotas raciais na instituição – primeira do país a adotar o sistema –, 48,7% dos alunos são autodeclarados negros ou pardos. O cenário mudou desde 2003, quando esse percentual não passava de 10%.

A proporção era ainda mais desigual quando analisados os professores: apenas 1% se identificavam como pretos. Nos últimos anos, a universidade também ampliou o número de docentes negros, mas eles ainda são minoria.

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Entre os 636 docentes, 21% se identificam como pretos, pardos, indígenas ou amarelos. De acordo com a assessoria de imprensa da instituição, a autodeclaração racial não é obrigatória.

Apesar do aumento da representatividade, a diversidade na população da universidade federal ainda é inferior à de moradores da capital. No mais recente levantamento da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), realizado em 2018, o órgão apontava que 57,6% dos habitantes da capital eram negros – equivalente a 1,6 milhões de pessoas.

As cotas raciais foram aprovadas em 2003 e implementadas efetivamente no ano seguinte. Desde então, 5.372 estudantes que ingressaram na universidade nessa modalidade se formaram. Um deles é Nauê Bernardo Pinheiro de Azevedo, advogado e membro da Comissão de Igualdade Racial da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-DF).

“Quando eu entrei na UnB, em agosto de 2009, para fazer minha primeira graduação, os negros da minha turma eram única e exclusivamente restritos aos alunos ingressos pelo sistema de cotas, nada mais.”

Nauê afirma que estudou em “um ambiente que asfixiava” naquele início de graduação. Contudo, sentiu mudanças anos depois. “Quando eu entrei na UnB em 2014, para gerenciar um projeto, já pude perceber uma mudança. Era um perfil diferente”.

O cotista também deu aulas na instituição, entrando na estatística da minoria dos professores negros da universidade.

“Estamos vencendo. Não podemos retroagir agora, porque está dando certo”, destaca.

Fiscalização

Desde 2012, o princípio das cotas na UnB é a autodeclaração racial, e não mais a verificação das características dos candidatos por uma banca examinadora, como ocorreu nos primeiros anos. Ou seja, para concorrer no sistema, basta que o candidato se afirme como preto ou pardo.

Para garantir que as cotas cumpram o papel de reparação histórica de desigualdades sociais e raciais, a UnB tem feito sindicâncias para apurar fraudes no sistema. Em julho, 15 estudantes acabaram expulsos da universidade e duas ex-alunas, que já haviam se formado, tiveram os diplomas cassados. O professor da UnB e chefe de gabinete da reitoria Paulo César Marques afirma que punir estudantes que fraudaram o sistema “é uma forma de tornar a política mais forte, mais confiável”. Ele explica que as cotas para estudantes ajudam a aumentar o percentual também de professores negros.

“São rodas de uma mesma engrenagem. Às vezes, o resultado demora um pouquinho mais, mas a universidade está ficando mais democrática.”