Eram cerca de 22h40 quando a estudante Elitânia de Souza da Hora, 25, saía do campus da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, em Cachoeira, a 120 km de Salvador. Surpreendida pelo ex-companheiro, foi atingida por três tiros disparados por ele. Chegou a ser levada para o hospital, mas morreu. Dois dias depois, Alexandre Passos Silva Góes teve o mandado de prisão por feminicídio decretado pela Justiça e foi encaminhado para o presídio regional de Feira de Santana, onde ainda aguarda o julgamento.

Elitânia é parte de uma cruel estatística: foi uma das 4.519 mulheres vítimas de homicídio em 2018 no Brasil, segundo apontou o Atlas da Violência 2020. Os dados mostram que mulheres negras, assim como a universitária, são a maioria dessas vítimas: o risco de ser assassinada no Brasil é 64% maior para mulheres pretas e pardas do que para as demais —enquanto representam 55% da população.

Para Amanda Pimentel, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os dados escancaram as falhas no alcance de políticas públicas e a existência de um abismo social que se aprofunda pelo racismo estrutural e institucional.

“O homicídio de mulheres no Brasil não é uma violência universal, pelo contrário. É demarcada social e racialmente. Em 2018 havia um contexto de diminuição dos homicídios no país, mas isso não aconteceu com a população negra”, explica.

Entre pretas e pardas, a taxa de homicídio subiu 12,4% entre 2008 e 2018. O índice, porém, caiu 11,7% para mulheres não negras (brancas, amarelas ou indígenas).

“Há uma hipervulnerabilização da mulher negra em relação a qualquer outro sujeito social. Por conta de machismo e racismo, além da dificuldade de acesso ao sistema de Justiça, quando ela chega nesses espaços sequer é reconhecida como digna de proteção…”

Dupla violência: vítima e mãe da vítima

Além de as mulheres negras serem as que mais morrem, o Atlas da Violência 2020 apontou que o risco de ser vítima de homicídio no Brasil é 74% maior para homens negros, especialmente jovens. Esse dado revela uma outra face da violência sobre as mulheres negras: quando não são a maioria das vítimas de homicídio, sofrem a violência indireta, marcada pelo sofrimento psicológico, com o assassinato de seus filhos, maridos, pais.

“A mulher negra tem um perfil de vitimização que não se dá apenas a partir do que ela sofre fisicamente, mas das diversas relações que ela estabelece. Ela é a maior vítima desses assassinatos e também está diretamente ligada aos homicídios dessas mulheres e homens negros. Ela é duplamente vitimada”, afirma Amanda.

A mãe de Elitânia, Maritânia de Souza, vive, aos 42 anos, sob o efeito de remédios controlados por conta da depressão —e, sem acreditar na condenação de Alexandre, teme pela segurança da sua família. “A omissão do Estado está matando mulheres negras como minha irmã e continua matando suas famílias”, lamenta Ranyelle de Souza, que, ao lado da mãe, luta para julgamento por júri popular.

Para a assistente social Lúcia Xavier, coordenadora da Criola, ONG que defende direitos das mulheres negras, essas mortes tomam um peso social e político muito grande na vida das sobreviventes. Elas lideram incansáveis lutas por justiça, uma trajetória de dor, humilhações e ofensas.

“Nos casos de jovens mortos pelo Estado, ela vira a mãe do bandido, logo não poderá falar. Não importa o que o menino fez ou não fez, ela sempre será associada à criminalidade. Tudo isso permite que essas estruturas racistas se tornem cada vez mais violentas e fortes.”

Mães que perdem seus filhos

“Desculpa, mas não quero mais falar sobre isso. Mexer nessa ferida não vai trazer meu filho de volta.” A justificativa de C. ao desistir de participar desta reportagem é um retrato da dor de tantas mães negras que perderam seus filhos pelas mãos de policiais no país. H., 16, foi um dos jovens negros e com baixa escolaridade mortos após uma abordagem, em 2016, em São Paulo. Após lidar com um longo luto, que trouxe problemas de saúde física e mental, C. optou por não seguir na busca pelos culpados.

Rute Fiúza entende a escolha. É por mães como ela que se mantém em uma luta incansável desde a manhã de 24 de outubro de 2014, quando seu filho Davi desapareceu. Ele conversava com uma vizinha na frente de casa, no bairro de São Cristóvão, em Salvador. Um grupo de homens o encapuzou, amarrou pés e mãos e o colocou no porta-malas de um Gol prata. O adolescente nunca mais foi visto.

Desde então, a rotina de Rute se divide em duas. Por um lado, a militância pelos direitos humanos e o auxílio a famílias vítimas da violência do Estado. Por outro, as marcas da síndrome do pânico, dias sem comer, uso de medicamentos controlados, mania de perseguição.

Em quase seis anos, viu pouco acontecer, mas não perde a esperança de enterrar o filho. O Ministério Público denunciou em setembro de 2018 sete policiais militares pelo desaparecimento e morte do adolescente, mas a audiência de oitiva das testemunhas, marcada para abril deste ano, segue sem data, devido à pandemia de coronavírus.

“Há um propósito desse nosso Judiciário, que é nos cansar pela burocracia, por essa espera que parece não ter fim. Só que nós, mulheres negras, somos resistência. Não porque queremos, mas somos obrigadas. E não é só pelo meu. É pelo filho da vizinha, pelo pai de uma amiga, pelo companheiro de um familiar.”

Na busca por reparação, Lúcia Xavier aponta mais uma violência: a falta do luto. Enquanto mães, elas precisam lidar com a ausência do filho, mas continuar cuidando da família, inclusive economicamente. “Isso desestrutura essa mulher. Os outros familiares negros também correm risco de vida. Essa preocupação de ‘como será seu futuro?’ ou ‘que tipo de vida seus filhos ou parentes terão?’ não passa mais pelo ‘se ele vai estudar ou não’, mas pelo ‘se ele vai ficar vivo ou não'”, diz.

Zilda Maria de Paula, 68, não reclama por não ter vivido o luto. “Eu já tô morta”, sentencia. Ela se sente sem vida há cinco anos, desde que seu único filho foi assassinado na maior chacina da história de São Paulo. Em 13 de agosto de 2015, Fernando Luiz de Paula foi morto a tiros aos 34 anos, em Osasco, junto de outras 16 pessoas. Os autores eram policiais que vingavam a morte de um cabo da Polícia Militar e de GCM.

Empregada doméstica aposentada, Zilda ainda mora na mesma casa, em Munhoz Júnior, favela entre Osasco e Barueri. Não teve coragem de se desfazer de objetos do filho, como suas bolas de basquete. Foi lá que organizou com outras mães do 13 de Agosto, grupo que lidera, as atividades que marcaram os cinco anos da chacina.

“Às vezes eu tenho vontade de parar, mas quem cala consente. Quando vejo outras mulheres negras grávidas, penso ‘Meu Deus do céu, criar um filho para a polícia matar?’. Continuo lutando por elas.”

A preocupação de Zilda é uma questão constante na vida de outras mulheres. Rose Santana, 38, de Piracicaba (SP), foi mãe aos 17 anos. Só se deu conta do racismo que o filho sofria quando Bruno tinha 4 anos. A professora dizia que ele tinha “cor de bosta”, contou o menino.

Dez anos depois, o baque foi muito maior: indo para a casa de um amigo, carregando um videogame, o jovem foi abordado pela polícia e colocado no camburão. Como uma casa no bairro havia sido assaltada, Bruno foi levado para ser reconhecido pela moradora. Rose só soube quando a polícia levou seu filho de volta para casa. “Perguntei porque haviam levado Bruno e a justificativa foi que um menino negro, sem camisa, andando com um videogame era suspeito”, lembra.

O susto mudou a vida de Rose, que passou a estudar sobre questões raciais e procurou o movimento negro na cidade para entender como lidar com o racismo. Orientou o filho, hoje com 22 anos, a como se portar ao ser parado pela polícia. “Não correr, colocar as mãos na cabeça, não olhar nos olhos, responder só com ‘sim, senhor’ e ‘não, senhor’. É preto, não pode vacilar”, conta. Anos depois, engravidou novamente. Passou os nove meses apreensiva com a luta que enfrentaria novamente.

“Quando João nasceu e vi que ele era branco, assim como o meu marido. Eu senti um alívio por saber que ele não vai passar pelo que o Bruno passa. Ao mesmo tempo foi muito triste ter que, naquele momento tão bonito, pensar nisso.”

Já Sandra Regina dos Santos, 53, de Araraquara (SP), prepara os netos para um futuro que acredita ser mais promissor. Mãe de Wilson, 30, e Beatriz, 27, ela não dorme enquanto o mais velho não avisa que chegou bem em casa. Desde os quatro anos, orienta o rapaz sobre como lidar com policiais.

Já adulto, Wilson passou pela primeira experiência. À noite, na volta do trabalho como empacotador em um mercado, foi parado. Era o único negro no grupo de colegas e o único que precisou provar ser dono da bicicleta em que andava. “Por sorte, eu já havia orientado a andar sempre com a nota fiscal”, conta.

Hoje, Sandra aguarda o momento em que precisará ter a mesma conversa com o neto Bernardo, 3. Ao mesmo tempo, conversa com a neta Melissa, 6, sobre quem pode ou não tocar nela. “São conversas difíceis, mas necessárias para que a gente crie uma geração negra mais questionadora, consciente e, sobretudo, que permaneça viva.”