Jacob Blake está paralisado da cintura para baixo; manifestantes pedem que agentes sejam presos.

Pela segunda noite consecutiva, manifestantes tomaram as ruas de Kenosha, no estado americano de Wisconsin, para protestar contra a violência policial no país.

Os atos, que terminaram com confrontos e prédios incendiados, são uma resposta a uma ação policial na qual agentes brancos atiraram pelas costas, a curta distância, em Jacob Blake, um homem negro.

Blake, 29, foi alvejado enquanto era abordado por dois oficiais chamados para atender um incidente doméstico na tarde de domingo (23).

Os protestos pelo fim da violência policial em Kenosha, que fica ao norte de Chicago e ao sul de Milwaukee, começaram pacíficos, mas houve cenas de confronto durante a noite de segunda (24) e a madrugada desta terça (25).
Os manifestantes não respeitaram o toque de recolher imposto pelo governador e foram confrontados pela polícia e por agentes federais enviados para a cidade. Ao menos uma pessoa ficou ferida.
Prédios públicos, lojas e veículos foram incendiados. A polícia usou bombas de gás e balas de borracha para dispensar as centenas de manifestantes.
Imagens publicadas em redes sociais mostram pessoas brancas e negras atacando propriedades e homens usando bastões de beisebol para quebrar semáforos, luzes de postes e faróis de carros.

Em outro registro, um homem branco, em um skate, joga combustível em um caminhão do governo e depois coloca fogo no veículo. Do outro lado, civis brancos armados montaram guarda em frente a um espaço comercial para protegê-lo de ataques.

Um grupo grande de manifestantes foi até a frente de um tribunal. A polícia respondeu, jogando bombas de gás em direção à multidão, que revidou lançando fogos de artifício e garrafas de água.

Também houve protestos pelo ataque a Blake, em menor escala, em Nova York, Seattle e Portland.

Os ativistas, ligados ao movimento Black Lives Matter (vidas negras importam), pedem que os policiais envolvidos no caso sejam demitidos e presos. Até agora, eles foram apenas afastados das funções.

O governador de Wisconsin, o democrata Tony Evers, enviou a Guarda Nacional na segunda (24) para Kenosha, na tentativa de manter a ordem. Ele condenou o uso excessivo de força pelos oficiais que atiraram em Blake e pediu uma sessão especial no Legislativo para avaliar mudanças na polícia.

“Nós devemos oferecer nossa empatia. Devemos olhar para o trauma, o medo e a exaustão de ser negro em nosso estado e em nosso país”. Kenosha é uma cidade de 100 mil habitantes, com 12% de negros e 67% de brancos, segundo dados do censo dos EUA.

ENTENDA O CASO

Segundo a polícia de Kenosha, o episódio deste domingo ocorreu enquanto oficiais respondiam a um chamado de incidente doméstico, perto das 17h locais (19h, em Brasília).

Um vídeo que circula nas redes sociais mostra Blake andando até o assento do motorista de um veículo SUV, parado na rua, seguido por dois policiais que apontam armas para suas costas. Blake, que aparenta estar desarmado, abre a porta do carro com os agentes atrás dele, e os tiros são disparados à queima-roupa. É possível ouvir sete disparos. Não está claro se apenas um ou os dois oficiais dispararam.

O episódio acontece menos de três meses após o assassinato de George Floyd, homem negro que foi sufocado por um policial branco. O caso gerou uma grande onda de protestos pelo fim da violência policial contra negros que se espalhou pelos EUA e chegou a outros países. Em resposta, o governo federal enviou tropas federais a algumas cidades, como Portland, o que gerou ainda mais atos.

O advogado de direitos civis Ben Crump, que atende a família de George Floyd e disse ter sido contratado para representar Blake, afirmou em publicação no Twitter que três filhos da vítima estavam a apenas alguns metros dali quando ele foi alvejado. “Viram a polícia atirar em seu pai. Ficarão traumatizados para sempre”, escreveu. Segundo Crump, Blake tinha tentado intervir em uma briga entre duas mulheres.

Os protestos antirracismo são um dos temas da campanha eleitoral nos Estados Unidos. O presidente Donald Trump, que busca a reeleição, tem buscado ressaltar a destruição ocorrida em algumas das manifestações e se colocar como um defensor da lei e da ordem. Seu rival, Joe Biden, tem dado apoio aos protestos e defendido mudanças para combater a violência policial contra os negros.