Quando há três semanas a esteticista e palestrante Cristiane Boneta chegou ao consultório odontológico que costumava frequentar em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, para um procedimento agendado e acabou vivendo uma situação traumática de racismo, ela não imaginava que o episódio ofereceria uma virada em sua vida.

“A recepcionista pediu que eu guardasse os sapatos e a bolsa em um saco de lixo. Achei estranho, mas obedeci. Mas logo em seguida ela estendeu outros dois sacos e disse: ‘Esses aqui são para você vestir. E como seu cabelo é volumoso e não cabe em uma touca, você vai ter que colocar um saco nele também'”, relata Cristiane.

Cristiane sacou o celular e registrou a situação, compartilhada depois em suas redes sociais. “Eu fiquei como um zumbi, sem me mexer. Não estava acreditando no que estava acontecendo. Quando a recepcionista saiu para avisar o dentista que eu estava na sala de espera, tive o estalo de tirar uma foto para registrar o fato. Em seguida, entrei na sala tremendo”. Enquanto a cirurgia era realizada, Cristiane repetia mentalmente que precisava se acalmar, que já estava ali e iria confrontar o dentista no fim da sessão. “Aprendi a não levar desaforo pra casa.”

O desabafo nas redes viralizou. Além do apoio nas redes sociais, ela viu algumas surpresas chegarem em sua caixa de entrada no Instagram. Das trocas de mensagens, surgiu a oportunidade de ajudar outras mulheres negras a não precisarem passar pelo mesmo constrangimento.

“Diversas empresas ofereceram EPIs, mas uma delas, com uma mãe e filha negras à frente do negócio, foi a que me fez brilhar os olhos. Elas me convidaram para criar uma touca descartável para cabelos black power, que seja do tamanho adequado para acomodar também tranças e dreads, pensando no cabelo afro.” A empreendedora logo pensou em expandir a ideia inicial. “Propus criarmos aventais de uso único inspirados na modelagem de jalecos de tecido, de diversos tamanhos, para que caibam em corpos obesos, de todos os tamanhos possíveis. É uma linha toda de EPIs descartáveis pensada nos corpos excluídos, fora dos padrões.”

A empresa embarcou na ideia de Cristiane, que em seguida se reuniu com a modelista da fábrica para criar os primeiros modelos. Na cor rosa, um tom bem pink. O anúncio da novidade, como não podia deixar de ser, também foi em seu perfil, com uma foto estilo “look do dia” no último dia 16. O post recebeu inúmeras mensagens de colegas esteticistas e de desconhecidos. “Um rapaz que cursa medicina quer encomendar. Disse que estava preocupado em como faria nas aulas práticas, já que o cabelo não cabe na touca tradicional. Outro me escreveu querendo encomendar um kit com avental, máscara e touca para a namorada!”, conta ela, orgulhosa.

Os produtos foram aprovados e estão em fase de precificação, isto é, os custos de produção, distribuição e lucro estão sendo calculados, para serem finalmente comercializados. “Nós vamos vender online, é claro, ainda mais considerando o momento atual. Mas nós já fechamos parcerias de revenda em São Paulo e Bahia.”

A resposta positiva nas redes foi tanta que Cristiane já emplacou outra ideia: criar avental, touca e máscara facial com estampa “de oncinha” e com mangas estilizadas, com babados. “Bem perua, mesmo, sabe? Minhas amigas esteticistas da zona sul do Rio ficaram doidas e já querem encomendar. Vai ser um sucesso!”, finaliza a empreendedora, garantindo a volta por cima a um episódio traumático.

Carreira de esteticista foi fruto do faça-você-mesma.

Cria da baixada fluminense, Cristiane enfrentou diversos obstáculos até se tornar uma empreendedora referência em sua área, ministrar cursos e ter o próprio espaço dedicado à estética, em Duque de Caxias. Até sanduíche natural na praia já vendeu. Dos 12 anos em que atua como esteticista, sete deles são dedicados aos cuidados e tratamentos para a pele negra. “Eu quis estudar estética porque ninguém sabia tratar da minha pele até então. Qualquer picada de pernilongo deixava uma cicatriz, por conta da alta produção de melanina. Minha perna era cheia de manchas e só usava calças, nunca uma saia, vestido. Hoje, já vemos dermatologistas negras e especialistas na nossa pele, mas era coisa rara naquele tempo.

Saber quando pedir ajuda Apesar das mensagens de apoio que recebeu desde o bate-boca no consultório odontológico, Cristiane também viu uma leva de cobranças chegarem até ela. “Muita gente me dizia para processá-lo. Eu nem sabia que era possível. Com o alerta, conversei com a minha advogada e nós entramos com uma ação, de fato”, diz. O processo todo foi desgastante. Dias depois do episódio, ela começou a ter insônia, sentir angústia e crises de choro ao longo do dia. “Me fez muito mal, me machucou muito. Mas decidi que esse homem não ia me tirar a paz, não. Comecei naquela semana mesmo a conversar com uma psicóloga e estou na quarta sessão já. Não podemos minimizar o que estamos sentindo. Ser forte também é saber quando devemos pedir ajuda”, afirma.