No mês de agosto, o time Brasil, selo do Comitê Olímpico do Brasil (COB), realizou lives nas redes sociais com temas importantes para o aumento do diálogo entre atletas e sociedade. Pautas que no dia a dia do atleta não são comumente debatidos, como o racismo.

Falaram sobre igualdade racial no esporte Ygor Coelho, campeão dos Jogos Pan-Americanos de 2019 no badminton, Aline Silva, vice-campeã mundial de wrestling, Etiene Medeiros, campeã mundial de natação, e eu, Diogo Silva, semifinalista olímpico de taekwondo. O debate ainda contou com a mediação de Eliana Alves Cruz, também colunista do UOL Esporte. Era a primeira vez que tantos atletas negros de modalidades diferentes estavam debatendo, com a chancela do COB, publicamente sobre racismo.

Cinco dias depois, outra live, agora pelo Instituto Olímpico Brasileiro (IOB), braço educacional do COB, teve como tema “Racismo e Esporte: Prevenção e Enfrentamento”. Contou com Arnaldo Oliveira, bronze nos jogos de Atlanta-1996 no revezamento 4×100, Iziane Marques, jogadora de basquete que fez parte da WNBA, e Djamila Ribeiro, filosofa e escritora, autora de um dos livros mais vendidos no Brasil desde o seu lançamento, o Pequeno Manual Antirracista (Companhia das Letras).

O racismo nas modalidades olímpicas não é publicizado, como no futebol. Embora os casos sejam frequentes, têm uma visibilidade menor. Mas os traumas provocados por esse tipo de violência acarretam muitos males, principalmente para jovens que ainda estão em processo de construção de identidade.

Há iniciativas da sociedade civil articuladas para combater os danos causados pelo racismo sofrido pela população negra. Um deles é o Instituto Afro Amparo e Saúde, que promove cuidados de saúde e recuperação de doenças que são consequência do racismo. Seu fundador, Paulo Romualdo, ex-atleta e treinador de ciclismo BMX, é um exemplo de protagonismo e dirige uma equipe focada neste tipo de atuação cada vez mais necessária.

Atuando desde 2018, o Instituto constatou que os principais diagnósticos consequentes do racismo são doenças psicossomáticas e doenças emocionais, como a depressão, além de desânimo, impotência, insegurança, baixo desempenho físico, baixa autoestima e dificuldade de relacionamento.

O adoecimento emocional faz com que jovens talentos interrompam suas carreiras muitas vezes precocemente. Uma dessas vítimas foi Ângelo Assumpção, ginasta negro que passou pelo Clube Pinheiros. Ele denunciou o clube no fim de 2019 por racismo e acabou demitido.

O Pinheiros, localizado no Jardim Europa, região nobre da zona oeste de São Paulo, foi inaugurado em 1930, como Germânia. Com tradição em remo, esporte da elite branca da época, queria ter moldes europeus. Sempre investiu em esporte, tem aproximadamente 35 modalidades ativas e, em 17 delas, concentra grande parte do talento olímpico do país.

Mesmo tendo o esporte como coração pulsante, é um clube de associados. E a maioria deles mantiveram suas tradições. Em uma delas, babas negras entram no clube vestidas de branco da cabeça aos pés.

Ângelo defendeu o Pinheiros por 16 anos e, no momento em que precisou da proteção do clube, foi mandado embora. Esse fato explica o silenciamento dos atletas. Muitos não denunciam ou expõem casos assim por temerem consequências e retaliações, já que, na maioria das vezes, o agressor é protegido e a vítima acaba sendo culpada.

Ângelo foi exposto outras vezes de forma vexatória em redes sociais. O caso que ganhou mais repercussão é de 2015. Em um vídeo vazado, atletas o humilhavam fazendo associações a “coisas boas” serem brancas e “coisas ruins” serem pretas. Pode soar imaturo, mas eram atitudes de adultos que já estavam inseridos na ótica racista.

Mohamed Ali, o maior expoente do boxe mundial, rebatia, já em 1970, essas interpretações maliciosas. Quando Ali falava sobre o céu, ele expunha uma questão: “Já que Deus e os anjos são todos brancos, onde estão os negros que morriam?” Ele mesmo respondia: “Possivelmente na cozinha, servindo aos anjos brancos”.

Outro atleta do Pinheiros que passou por situação constrangedora foi Leonel Diaz, jovem negro atleta do polo aquático. Leonel estava na estação de trem aguardando transporte para chegar até o treino quando um jornalista o aborda na estação para um relato sobre trens lotados. No estúdio, o apresentador Rodrigo Bocardi, ao vivo no Bom Dia SP, da Globo, ao ver a camiseta azul do jovem, identifica que é do Pinheiros e, automaticamente, associa o jovem a um pegador de bolas de tênis. Nesse momento, o racismo estrutural colocou o perfil de Leonel como catador de bolinhas e não como um símbolo de sucesso — que é a costumeira representação dos atletas negros.

Situações vexatórias em tempos contemporâneos acontecem toda semana. Pedidos de desculpas não geram nenhuma empatia pois não propõem reparação ou mudanças desse comportamento corriqueiro.

Os casos de depressão entre jovens negros no esporte só aumentam e precisamos mais do que uma live do COB para reparar o problema. É necessário um compromisso ético e político para que haja enfrentamento, serviços como disque denúncia, aumento da contratação de profissionais negros em cargos de decisão, programas educativos e punição rigorosa aos atos de racismo e injuria racial no esporte.