Rede Nossa SP divulgou pesquisa nesta quarta-feira (13). Para 69% dos entrevistados, shoppings centers são locais onde há grande diferença no tratamento de pessoas negras e pessoas brancas.
Fonte: Bárbara Muniz Vieira, G1 SP
A maioria dos pretos e pardos de São Paulo acredita que o preconceito e a discriminação contra a população negra se manteve ou aumentou na cidade nos últimos 10 anos, de acordo com a pesquisa “Viver em São Paulo – Relações Raciais” divulgada pela Rede Nossa SP nesta quarta-feira (13).
A pesquisa foi realizada com o Ibope, baseada em dados oficiais do IBGE, com 800 entrevistas com moradores da cidade de 16 anos ou mais de 03 a 19 de agosto de 2019, a partir de coletas presenciais e online. A margem de erro é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos. Dentre os negros, 31% acreditam que aumentou o preconceito e a discriminação contra a população negra e 42% acreditam que o índice se manteve, um total de 73%. Em 2018, a soma desses dois indicadores era maior, 77%.
Para a assessora de projetos da Rede Nossa SP Carolina La Terza, a percepção da violência pelos negros têm aumentado.
Dentre os brancos, 66% acham que o preconceito e a discriminação contra a população negra aumentaram ou se mantiveram. Em 2018, 65% dos brancos acreditavam no aumento desse índice ou que ele se mantinha. Para o coordenador executivo do Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro) e ex-secretário da Justiça de São Paulo Dr Hédio da Silva Junior, a presença dos negros na publicidade, por exemplo, pode dar a falsa impressão a brancos de que o preconceito e o racismo diminuíram, o que não é verdade.
Centro e Leste percebem mais
Os moradores das regiões Central (48%) e Leste (38%) de São Paulo se destacam entre os que avaliam que o preconceito contra a população negra aumentou. A região Sul tem a menor percepção desse índice. Para 27%, o preconceito aumentou. A assistente editorial Camila Marques, 38 anos, se reconhece como preta e é moradora do bairro Santa Cecília, região central da capital. No ranking geral, 33% do total dos entrevistados acredita que aumentou o preconceito contra a população negra. Para 37% o preconceito se manteve e para 25% diminuiu.
Shoppings discriminam mais
Dentre aqueles que se autodeclaram pretos e pardos, a percepção é mais acentuada em relação à diferença de tratamento em todos os locais. Assim como no ano passado, dentre os 8 locais avaliados, em 6 deles pelo menos metade dos paulistanos considera que há diferença no tratamento de pessoas negras e pessoas brancas.
Cerca de 7 em cada 10 entrevistados acreditam que pessoas negras têm menos oportunidades que pessoas brancas no mercado de trabalho. Essa percepção é similar entre os autodeclarados pretos e pardos e brancos. Se destacam entre os que acham que as pessoas negras têm menos oportunidades a faixa etária de 25 a 34 anos (74%), a faixa de 35 a 44 anos (73%) e as mulheres (73%). A percepção de que pessoas negras têm menos oportunidades no mercado de trabalho do que pessoas brancas aumentou entre os moradores das regiões Central (81%, contra 63% em 2018), Norte (70% em 2019 contra 61% em 2018) e Leste (72% em 2019 contra 63% em 2018).
Homens mais velhos e brancos percebem menos o racismo
Enquanto os entrevistados de 16 a 24 anos (83%), de 35 a 44 anos (80%) e os moradores da região Leste são os que apresentam os indicadores de percepção de racismo mais elevados, os homens, os entrevistados de 45 anos ou mais e os moradores da região Sul são os que apresentam os indicadores de percepção mais baixos. “Esse pessoal mais velho é um pessoal que foi muito bombardeado pelo mito da democracia racial. Eles seguem a representação social do [jogador] Pelé em uma visão de que ele não tinha que falar sobre esse assunto, a resposta dele era a de jogar bem em campo. Essa forma Pelé de lidar com o problema implica um silêncio sobre o assunto”, afirma Hédio.
Para o jurista, a maior exposição social do preto vai ao encontro do racismo. “Quanto maior ascensão social maior a exposição. Quando você é um gari peto você está em um lugar social onde você é esperado, você mora na periferia. Quando é que o problema fica visível? Quando você está em um carro importado, morando em um condomínio e comendo em um restaurantes bacanas. Aí o macaco está fora do galho e a percepção aumenta”.
Discurso de políticos
Na opinião de ¾ dos paulistanos, declarações, comentários ou piadas com conteúdo racista ou preconceituoso feitos por políticos estimulam o racismo ou preconceito na cidade de São Paulo. Os moradores das regiões Central (84%) e Oeste (80%) são os que mais mencionam que as declarações, comentários ou piadas com conteúdo racista ou preconceituoso feitos por políticos estimulam o racismo na cidade.
Os menos escolarizados (23%), os mais velhos, com 55 anos ou mais (21%) e os homens (21%) são os que mais mencionam que declarações, comentários ou piadas com conteúdo racista ou preconceituoso feitos por políticos não estimulam casos de racismo ou preconceito na cidade. “Isso demonstra o quanto os políticos deveriam ser responsáveis por aquilo que falam”, opina Carolina.