Grupos de pais de colégios da elite têm pedido mais diversidade nas instituições.

O movimento de empresas brasileiras para aumentar a contratação de negros também tem ecoado nas escolas particulares do país, capitaneado, no entanto, pelos próprios pais, que dizem notar pouca diversidade racial em um dos principais ambientes onde seus filhos circulam.

Levantamento feito pela Folha nos dados do Censo Escolar de 2019 revela que, pelo menos em São Paulo, os dados confirmam a percepção dessas famílias. Uma em cada dez escolas privadas da capital paulistana (10% do total) informou ao Ministério da Educação não contar com um único professor negro.
A média de docentes negros nesses colégios é de 20%. A estimativa da prefeitura aponta que 37% dos moradores da cidade tenham essa cor da pele.

A demanda por estatísticas da raça de alunos e professores é uma das pautas que as famílias têm apresentado às direções de alguns dos colégios mais caros do país.

A tendência ganhou força na esteira dos protestos que varreram o mundo após o assassinato do negro George Floyd, por um policial branco nos EUA, e culminou na criação do coletivo “Escolas Antirracistas” no Brasil em julho passado.

O grupo começou com 10 participantes e tem agora 250. Ele se comunica principalmente pelo WhatsApp.
Em escolas como Gracinha, Mobile, Bandeirantes e Carlitos também surgiram coletivos específicos de pais desses colégios. Outras que já tinham movimentos organizados a favor de maior diversidade, como Equipe e Vera Cruz, se juntaram ao novo coletivo geral que, hoje, reúne famílias de mais de 60 escolas.

O movimento busca debater com os colégios medidas para o aumento da inclusão de negros — grupo que engloba pretos e pardos — entre alunos e professores, campanhas para a formação de pais e funcionários sobre racismo estrutural e mudanças curriculares.

“Eu já defendia uma pressão pela adoção urgente de medidas para maior inclusão racial nas reuniões do grupo de pais que existia no Vera Cruz, onde minhas filhas estudam”, diz o jornalista Caio Maia, um dos coordenadores do “Escolas Antirracistas”.

Para o jornalista, os desdobramentos da morte de Floyd aumentaram a percepção de urgência da sociedade em relação à desigualdade, ao evidenciar que a frequência com que tragédias envolvendo negros ocorre não é coincidência, mas fruto de um racismo arraigado na sociedade.

No Brasil, o debate ganhou força nos últimos dias, após o Magazine Luiza anunciar um programa de trainee específico para candidatos negros.

“A sociedade começa a perceber que sem ações específicas não vamos eliminar o racismo estrutural, que não é exclusividade das escolas privadas, mas está presente em todas as esferas da nossa vida”, diz a produtora cultural Iramaia Gongora, que tem filhos no Colégio Equipe e é uma das coordenadoras do “Escolas Antirracistas”.

Os representantes do grupo relatam que as escolas têm sido receptivas, mas surgem barreiras, como a alegação de que não possuem dados compilados referentes à cor da pele de alunos e professores ou a promessa de ações sem a participação ativa dos pais interessados.

Entre os 61 colégios privados paulistanos com pais participantes no coletivo para os quais há dados no Censo Escolar, a parcela de negros entre os professores cuja raça é declarada era, em média, 8% em 2019. Esse percentual oscila de 0 no Colégio Santa Cruz a 50% no Colégio Itatiaia, unidade Moema (nesta unidade, há apenas oito docentes no censo).

Na rede pública de ensino, 30% dos professores têm essa cor da pele, segundo o levantamento da Folha a partir de dados do Censo Escolar.

Entre os universitários formandos em pedagogia e em licenciatura em matemática, ao menos 40% são negros, segundo dados do Enade (exame de conclusão de curso).

As famílias que militam nos movimentos defendem que uma maior diversidade nas escolas privadas beneficiaria tanto os alunos brancos quanto os negros, que, raramente, frequentam essas instituições por pertencerem aos estratos sociais menos favorecidos.

Folha procurou 20 das maiores escolas cujos pais estão no grupo antirracista. Em geral, os colégios responderam que reconhecem a falta de diversidade, mas afirmam se tratar de um problema que resulta do racismo estrutural da sociedade brasileira.

Apenas o colégio Waldorf Rudofl Steiner disse já ter mudado o processo de contratação de professores. Dois, Santi e Santa Cruz, dizem estudar ações para aumentar o número de negros entre os seus educadores.

“Sem dúvida essa ausência é resultado do racismo estrutural da nossa sociedade. Mas as escolas particulares não podem se esconder atrás dessa justificativa. Elas são parte da sociedade, portanto, a solução​ também passa por elas”, diz a pedagoga Clélia Rosa, especialista em educação para as relações étnico raciais pela Unicamp.

“Os únicos negros eram o porteiro e uma funcionária da cantina”, diz ela.

Sua longa experiência no setor de tecnologia – ela trabalhou por oito anos no Google – a fez acreditar que o universo escolar tivesse mudado nas últimas décadas. “Dizemos que precisamos educar as crianças para o futuro. O Google é considerada uma empresa do futuro, em parte porque lá há muita diversidade, o que contribui para a criatividade, a inovação”, diz ela.

A advogada, cujos filhos estudam na Mobile Integral, participa tanto do grupo antirracista recém-formado da escola quanto do coletivo maior de pais.

“Famílias diferentes têm olhares diferentes sobre vários assuntos e essa pluralidade de visões é muito positiva”, diz Iramaia.

Ela alerta, porém, que não adianta adotar ações para a maior inclusão de alunos negros sem medidas para aumentar a diversidade também entre professores, coordenadores e diretores.

“Isso só contribuiria para perpetuar o racismo estrutural. Toda criança precisa ter referências com as quais se identifiquem, nas quais possam se espelhar”, afirma a produtora cultural.

Estudos têm indicado o impacto positivo para os estudantes negros quando há diversidade de professores nas escolas.

A pesquisadora Andreia Cardoso Silveira, em trabalho pela Universidade Federal da Bahia, verificou que entre estudantes da educação básica com perfis socioeconômicos mais altos, os negros tiveram desempenho escolar inferior aos brancos, mesmo tendo perfis semelhantes.

Uma hipótese apresentada pela pesquisadora é que “existem práticas e atitudes nos interiores das escolas que têm impedido os alunos negros de usufruírem das melhorias e recursos disponibilizados na mesma proporção aos alunos brancos”. Uma dessas atitudes pode ser o preconceito racial nas relações professor e aluno, e também entre estudantes. Outra hipótese é que a escola privilegia certos conteúdos tidos como eruditos, deixando em segundo plano outros conhecimentos, com os quais a população negra tem maior contato.

Silveira analisou levantamento que acompanhou em diferentes anos 1,1 mil alunos das redes pública e privada de Salvador.

Nos EUA, uma pesquisa de 2017 muito citada no debate sobre desigualdade mostrou que, se um aluno negro tiver ao menos um professor com sua cor da pele na terceira, quarta ou quinta séries do fundamental, contará com mais chances de se formar no ensino médio. Para ambos os sexos, ter esse docente nessas mesmas séries faz aumentar a aspiração dos estudantes. O trabalho foi feito por professores das universidades American, Johns Hopkins e da Califórnia (Davis).

Pesquisas que têm como base o ensino superior e o mercado de trabalho apontam que a diversidade traz ganhos também para os brancos, pois conviver com a diversidade ajuda em suas formações e traz mais criatividade para o mundo laboral.

O levantamento

A fonte para o levantamento sobre presença de negros é o Censo Escolar, feito pelo Inep, instituto de pesquisas do Ministério da Educação.

Portaria de 2017 da pasta e do Conselho Nacional de Educação exige que as escolas, públicas e privadas, informem dados sobre cor da pele. Escolas informaram à Folha que os dados são autodeclarados por alunos e professores.

Foram desconsiderados no universo dos colégios privados as creches conveniadas, que, apesar de serem privadas, estão mais próximas à estrutura pública.

Para o levantamento desta reportagem, foram considerados os colégios paulistanos que tinham ao menos 25% de informações válidas de professores. Foram excluídos os colégios que estavam entre os 25% com menos docentes.

A média de não resposta sobre a cor da pele dos professores na rede privada foi de 19%. Esse universo foi desconsiderado na análise para esta reportagem

COLÉGIOS RECONHECEM FALTA DE DIVERSIDADE E RACISMO ESTRUTURAL

O racismo estrutural presente na sociedade brasileira é o argumento citado pelas escolas particulares para justificar seu baixo número de professores negros, que a maioria delas admite estar abaixo do ideal.
Mas apenas a Avenues e a Waldorf Rudolf Steiner, entre 20 colégios procurados pela Folha, disseram já ter adotado ações concretas para mudar essa situação, sem fornecer, no entanto, detalhes sobre essas medidas.

O primeiro critério usado pela reportagem para selecionar as 20 escolas que seriam contactadas foi a presença de famílias de alunos no movimento “escola antirracista” em São Paulo. O segundo foi estar no grupo com número maior de estudantes.

Foram enviadas a elas perguntas sobre como os dados da raça de alunos e docentes são coletados, a opinião da direção sobre o nível de diversidade de sua escola e as ações adotadas ou planejadas para aumentar a inclusão.

Das 20 escolas, 13 concederam entrevista por escrito, mas com uma grande variação no nível de detalhamento das respostas.

Móbile, Maple Bear, Vera Cruz, Carlitos e Objetivo, por exemplo, mandaram notas falando, de forma genérica e breve, o que pensam e têm feito sobre o tema. As demais responderam a todas as perguntas.
A resposta mais curta foi a do Objetivo que se limitou a informar que “a questão racial dos negros é uma preocupação de nossa escola há décadas. Tanto é assim que o Grupo Unip-Objetivo apóia a Universidade Zumbi dos Palmares, desde que esta foi fundada”.

A escola tem várias unidades e um máximo de 7% de docentes negros entre elas.

O Vera Cruz e a Móbile ressaltaram buscar maior diversidade e mencionaram seus projetos sociais e de bolsas referentes a alunos, mas não ao corpo docente.

Não há professores negros entre aqueles cuja raça foi informada no Censo de 2019 nas duas maiores unidades do Vera Cruz. Em uma terceira, há apenas um. No caso da Móbile, a maior unidade da escola possuía 6% de docentes negros, entre o total cuja raça foi declarada. Uma outra unidade não tinha nenhum.

Na nota enviada à Folha, a escola disse que os dados estão desatualizados, mas não forneceu os números válidos.

Entre outros colégios que argumentaram o mesmo, apenas o São Domingos apresentou estatísticas. Disse ter cerca de 23% de professores negros, acima dos 15,8% registrados em 2019.

“Fato é que, mesmo revistos os dados — e isso pode nos colocar em distinção em relação a muitas escolas privadas de nosso porte —, constataremos o óbvio: as escolas particulares têm baixa frequência de população afrodescendente”, afirmou o colégio em nota.

Bandeirantes, Gracinha Santi, Santa Cruz, Equipe e Avenues mencionaram que vão adotar procedimentos para melhorar a coleta da informação dos dados referentes à raça de alunos e professores.

Todas as escolas reconheceram a falta da diversidade como um problema, mas ressaltaram que isso é uma consequência do racismo estrutural.

“O Brasil tem uma dívida histórica com a população negra e a escola é responsável por grande parte dela. Muitos de nós não aprendemos sobre a nossa própria história durante a trajetória escolar”, diz a pedagoga Clélia Rosa, especialista em educação para as relações étnico raciais pela Unicamp.

Algumas escolas enfatizaram que seu projeto pedagógico contribui para o movimento antirracista.

“Oferecemos um currículo amplo, profundo e plural, em que a discussão racial é contextualizada histórica e culturalmente”, disse a escola Carlitos.

Duas escolas afirmaram já ter ações para aumentar a contratação de professores negros. Na Avenues, onde 6 dos 42 docentes — cuja a raça foi declarada — são negros, a direção disse ter estratégias de recrutamento para atrair e contratar mais candidatos negros. Mas não informou quais seriam elas. A escola Waldorf Rudolf Steiner, que tem apenas um docente negro — entre os 47 professores com raça informada — também afirmou já ter iniciado uma mudança no processo seletivo de novos professores.

“Os espaços das pessoas pretas estão muito aquém do que seria ideal em um país como o Brasil, onde é a cor predominante. Reconhecemos isso também dentro da nossa escola e iniciamos uma mudança no processo seletivo para nosso quadro”, divulgou.

A Waldorf ressaltou buscar “equiparação”, mas não detalhou as ações específicas.

Outras escolas — como Santa Cruz e Santi — também disseram, de forma sucinta, que buscam maior diversidade em seus corpos docentes. No Santi, apenas 2,4% dos professores com raça declarada são negros. No Santa Cruz, não há docentes negros entre os 157 cuja raça foi declarada ao Censo Escolar de 2019.

O colégio Bandeirantes, que tem apenas 1 professor negro no censo, informou não escolher seus professores por “cor ou raça”, mas pela capacitação profissional e diz ter “os mais rigorosos processos de avaliação” para assegurar seu “padrão de excelência”.

​Procurados, Dante Alighieri, Miguel de Cervantes, Mackenzie, St. Nicholas, Paulo de Tarso, Benjamin Constant e Lourenço Castanho não responderam aos questionamentos.